22 novembro 2010

De Dom Casmurro a “Tropa...”: a perigosa escolha do narrador


Este post é uma releitura (ou reescrita) do publicado aqui em 2007, quando do lançamento do primeiro Tropa de Elite. Atualizei e cortei partes invalidadas pelo segundo filme da série a pedido de uma colega que está produzindo um caderno cultural como TCC. A despeito da montagem rústica acima (não consigo postar!), o post promete surpresa melhor.

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Um relato, por assim ser, precisa ser contado por alguém. Este pode ser um narrador em terceira pessoa que participa da ação, que só observa ou um narrador em primeira pessoa, que conta o que vê - portanto, sua versão. Antes que vocês desistam de ler esse texto, deixo claro que não vou discorrer aqui sobre formas narrativas, mas sim sobre esse último tipo, corajoso, de narrador.
Em novembro de 2007, logo após o lançamento de Tropa de Elite, o primeiro, fiz uma reflexão sobre a escolha do diretor José Padilha pelo narrador Capitão Nascimento. Preocupava-me a maneira como estávamos reagindo ao filme, usando no nosso cotidiano os bordões do Capitão como exemplos de coragem e heroísmo. Daí para acharmos que todas as atitudes do supracitado personagem eram corretas, seria um pulo e ele se transformaria em herói. Um herói que tortura.
Para validar minha teoria, recorri ao melhor e mais polêmico exemplo de nossa literatura no que diz respeito à complexidade de um narrador: Dom Casmurro. Ao expor a visão de Bentinho em primeira pessoa, Machado de Assis também fez uma opção corajosa, com o claro intuito de instigar a interpretação do leitor. Como a visão do narrador tende a ser considerada correta por seu público ou leitores, Capitu passou a ser vista pela maioria como adúltera – e ponto.
De maneira correlata, ao colocar Nascimento como narrador, o diretor José Padilha fez com que muitos de seus telespectadores considerassem a visão do policial como correta. Por ser ele o narrador da história, passamos a pensar que tortura naquele contexto era aceitável e a máxima de que “bandido bom é bandido morto”, verdadeira. Pensando assim, ter o Capitão Nascimento como narrador foi uma opção muito corajosa – e perigosa.
Quem parou para analisar entendeu que José Padilha não queria dizer que Nascimento estava certo em tudo que fez. Aliás, deu mostras de que estava bastante errado – a não ser por sua postura incorruptível. Da mesma forma, Machado de Assis não posicionou Bentinho como um pobre coitado traído pela esposa, mas deixou exposto seu ciúme obsessivo, sufocante. Por serem humanos, com falhas, esses narradores geram ainda mais empatia com o público.
Esse é o perigo e a magia da narração em primeira pessoa, deixar que o leitor/telespectador se posicione na história. Aí, vem o segundo Tropa de Elite e Nascimento já não tortura, mas continua com sua visão considerada por muitos “moralista hipócrita.” Carrega as consequências de suas atitudes, como o afastamento do filho e mantém-se incorruptível – fazendo o que muitos de nós gostaria: denunciar políticos bandidos. A pergunta “herói ou não herói?” parece respondida por José Padilha.
Bentinho não teve direito a uma sequência que o elevasse à categoria de herói ou de bandido, em definitivo. Entrou para a história como o marido obsessivo, traído, com tendência à reclusão. Quanto à Capitu, ficará eternamente a pergunta: adúltera ou não adúltera? Meu marido acha que sim; eu não tenho tanta certeza. Talvez nem mesmo Machado de Assis soubesse.

08 novembro 2010

O Acre na mídia nacional

Neste final de semana comprei duas revistas de circulação nacional: Veja, por pura falta de opção, e Alfa, que está em sua segunda edição, para conferir se seria mais uma publicação masculina com reportagens melhores que as femininas.
Nas duas, por coincidência, havia menções ao Acre. Na Veja, uma matéria sobre o resultado da eleição, sob o título “A Teoria da Árvore em Pé”. A breve matéria não quer dizer muita coisa - como muitas de Veja -, destaca que o tucano José Serra venceu Dilma nas urnas acreanas e Marina, natural do seringal Bagaço.
A matéria traz falas de Jorge Viana, senador eleito pelo PT, e do tucano Tião Bocalom - segundo colocado na eleição para governo - que podem ter sido ditas a qualquer um, uma vez que a Veja tem o péssimo costume de coletar frases aleatórias de discursos proferidos publicamente ou a outras publicações sem comunicar seu autor. Na foto de destaque da matéria, Sérgio Petecão, senador eleito, Bocalom e Geraldo Alckmin, que esteve em Rio Branco em campanha para Serra no segundo turno.
Depois de argumentar sobre o porquê de Serra ter vencido num Estado governado pelo PT há 12 anos, a matéria encerra dizendo que os acreanos preferiram a "teoria da árvore em pé". A frase, que dá título à matéria, expõe a conclusão do autor da matéria sobre o discurso de Bocalom: "Prefiro um árvore no chão e uma família com casa para morar".
Digamos que nada é bem assim...

Na Alfa, a matéria não é exatamente sobre o Acre, trata dos rituais com uso da ahyuasca e como eles têm se disseminado nas grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo. Como muitos já sabem, o uso desse chá feito com de plantas alucinógenas (herança indígena) tem origem no Acre, com o chamado Santo Daime. Na foto de página inteira que abre a matéria está o acriano (assim mesmo, com “i”), Fabiano Pane, vestido com trajes indígenas, responsável por um desses rituais no Rio.

*Só para responder à dúvida por mim suscitada, a Alfa é, sim, mais um revista masculina com reportagens melhores que as publicações femininas.

03 novembro 2010

Eleições 2010: o caso Acre

O Acre é mesmo um lugar pitoresco, sem igual.

Enquanto 56% da população brasileira elegeu Dilma Roussef, do PT, sucessora do presidente Lula, os acreanos foram às urnas para dizer que queriam o adversário, José Serra, do PSDB, como presidente.

Aqui, Serra levou nada menos que 69,67%, sobrando pouco mais de 30% para a futura presidente. Foi a maior votação proporcional do tucano.

Quem nada sabe sobre o Acre pode pensar que temos aqui um forte governador tucano, puxador de votos. Não, estamos falando de um Estado governado pelo PT há 12 anos e que tem no primeiro governador petista, por dois mandatos, Jorge Viana (1999-2006), um ídolo, considerado responsável pelo resgate do crescimento do Acre e da auto-estima de seu povo.

Jorge foi eleito o senador mais votado em 3 de outubro, com mais de 200 mil votos. Saiu às ruas, no segundo mais que no primeiro turno, pedindo votos para Dilma, ligando-a incansavelmente ao legado do presidente Lula. Jorge distribuiu santinhos, mas não obteve o resultado que queria. Dilma foi, como no primeiro turno, derrotada por Serra nas urnas acreanas.

No primeiro turno Dilma disputou voto a voto com Marina, enquanto Serra manteve folgada dianteira. Isso mesmo, nem mesmo Marina, acreana do seringal, bateu o tucano aqui.

Um comportamento interessante, pra dizer o mínimo.

Não entendo bem o porquê dos acreanos votarem em Serra, mas gostaria de entender. Para isso, venho fazendo algumas observações.

Notei essa preferência nas mais diversas classes. Tenho colegas jornalistas, muitos, que votaram em Serra, inclusive fizeram manifestações públicas. Conheço faxineiras que votaram em Serra, muitas, bem como seus familiares.

Vi religiosos que se recusavam a votar em Dilma porque ela seria favorável ao aborto, casamento gay e legalização da prostituição. Pondero até onde a religiosidade possa ter influenciado nesse resultado.

O Acre é um estado em que o número de evangélicos é altíssimo e essas declarações contra Dilma ouvi deles. Talvez essa visão tenha sido passada dentro das igrejas, o que levou o eleitorado evangélico a migrar seu voto para José Serra. Juntando essa grande massa aos que realmente discordam do governo Lula e viam em Serra o melhor para o Brasil, teríamos o resultado surpreendente do tucano nas urnas acreanas.

É uma hipótese, fundamentada, no entanto - ressalto -, apenas em especulações dessa blogueira.

O que temos de fato é que o Acre não é representativo no total de votos do país. Fosse e o resultado dessa eleição poderia ter sido outro.