24 fevereiro 2010

Kafka e o forasteirismo

K. chega a uma aldeia distante e até então desconhecida para trabalhar como agrimensor para um conde, administrador do território. As pessoas ali vivem em um sistema muito diferente do qual K. estava acostumado: não podem, por exemplo, ter contato direto com as autoridades da aldeia. Chegar ao castelo onde vive o conde, então, é reservado apenas aos funcionários diretos. Há quem nunca tenha visto a face do administrador e encare o caminho até o castelo como um perigo.
Por vezes, K. é avaliado como inocente; outras, como atrevido, por pura falta de conhecimento do modo como se travam as relações naquele lugar distante. É impedido de trabalhar, pois consideram-no dispensável e sua experiência pouca conta diante de sua origem desconhecida. K. sofre julgamentos precipitados, é motivo de chacota, entre outros transtornos.
Não comecei esse post com informações relatando a obra de Kakfa sem intenção prévia. Por vezes, me sinto um pouco K. em Rio Branco. Conheco bem essa sensação de estranheza que os forasteiros causam em locais pouco receptivos a eles. A simples diferença de sotaque já é suficiente para chamar a atenção de todos; uma atitude estranha, então, basta para que todos se entreolhem, ora surpresos, ora desforrados.
Com o passar dos meses, no entanto, o efeito do forasteiro diminui. Não que as diferenças entre ele e os anfitriões diminuam, mas elas passam a ser aceitos como imutáveis. Hoje, depois de um ano morando do outro lado do país, consigo aceitar que não vou mudar os hábitos dos acreanos e fazê-los parecer com os meus conterrâneos. Também já entendo que, para viver aqui, não preciso gostar de tudo que eles fazem - e eles também não precisam me aplaudir.
Diante de culturas tão diferentes é impossível exigir que todos sejam iguais. Talvez o segredo para viver longe de sua terra e seus costumes não seja mais complexo do que o necessário para viver em qualquer tipo de sociedade: respeito e tolerância aos costumes do próximo, mesmo que isso se mostre difícil em alguns momentos.
Pode parecer estranho que existam diferenças tão destacadas dentro de um mesmo país, no entanto, posso garantir que a distância territorial e, principalmente, a história de cada Estado formam os costumes de seu povo, o que, no caso dos acreanos, transformou-os em pessoas extremamente orgulhosas de sua terra e ariscas à imposição de conceitos forasteiros.
Bem ou mal, é assim que eles são e me resta apenas conviver com isso. Ou, como ainda não terminei a leitura do livro O Castelo, que citei no início do post, talvez K. tenha alguma outra sugestão para mim.