03 dezembro 2009

Furacão pré-eleitoral

Marina Silva vem causando rebuliço no meio político desde sua entrada extra-oficial na campanha para presidência. O meio ambiente agradece.


Muito antes do início oficial da campanha de 2010, a eleição do próximo ano já mostrou que será diferente. E o motivo é um só: a presença da senadora acreana Marina Silva – e de sua causa ambiental – na disputa pela presidência. Desde que trocou o Partido dos Trabalhadores (PT) pelo Partido Verde (PV), mais afinado com suas ideologias, Marina vem causando rebuliço no meio político.
A senadora é dona de uma biografia admirável. Filha de nordestinos que vieram colonizar a Amazônia, trabalhou desde cedo como lavradora e só aprendeu a ler e escrever aos 16 anos, quando veio para Rio Branco, trabalhar como doméstica. Aos 26 anos, formou-se em história e em 1988 elegeu-se a vereadora mais votada da capital, pelo PT.
Em 90, Marina Silva foi deputada estadual e em 95 elegeu-se senadora, sendo reeleita em 2003. Com a posse do presidente Lula, assumiu o Ministério do Meio Ambiente, onde ficou até maio de 2008, quando deixou o cargo após atritos com outros integrantes do Governo – especialmente com sua possível concorrente nas eleições, Dilma Roussef.
Marina é uma ambientalista premiada e reconhecida pela Organização das Nações Unidas. Seu apego pela causa levou o presidente Lula a declarar que a campanha da ex-aliada seria “samba de uma nota só”. Em passagem por Rio Branco, Marina me concedeu a seguinte entrevista:

A senhora nasceu em um seringal, como a política entrou na sua vida?

Quando eu ainda era muito jovem, tinha 17 para 18 anos e conheci Chico Mendes. A partir dali comecei a ter um envolvimento com as comunidades eclesiais de base. Depois que fui para a universidade, participei do movimento estudantil, depois, como professora, do movimento dos professores. Na Central Única dos Trabalhadores acompanhei a luta dos seringueiros e dos empates. Em 85, o Chico saiu candidato a deputado estadual e resolvemos que eu sairia junto com ele à federal constituinte para puxar votos para ele se eleger. Então, a partir daí eu passei a ter um envolvimento partidário constitucional.

Como a senhora se preparou para sair do PT depois de mais de 30 anos de militância? Foi uma mudança lenta ou uma decisão que precisou ser tomada rapidamente?
O processo já vinha de alguns anos, de perceber que o tema meio ambiente não era recebido e não era tratado com a prioridade que deveria ter dentro do partido, no plano nacional. Aqui no Acre nós sempre trabalhamos com essa agenda. Quando o Jorge (Viana, ex-governador do Estado) disputou a primeira vez, já tinha claramente a visão de questionar o que estava acontecendo em Rondônia, de que nós não queríamos que a destruição que acontecia lá acontecesse aqui no Acre. Mas no plano nacional essa agenda não vinha sendo priorizada, ainda que as pessoas tivessem a sensibilidade de ver que o assunto era importante, na hora de traduzir em ação, não acontecia. De sorte que eu comecei a avaliar nem sair para um terceiro mandato. Quando veio a oportunidade de me juntar ao PV para essa reunião programática de reestruturação do partido, eu me animei, porque é isso que eu venho fazendo nos últimos 10 anos. E coloquei muito claramente: não é uma subordinação a ser candidata. A candidatura será fruto de um processo e eu vejo que o processo está bastante animado em todo o país e em diversos setores da sociedade.

Só o fato de a senhora ter se lançado como pré-candidata mudou o cenário político, inclusive com outros pré-candidatos adotando discursos diferentes. Como a senhora reage a isso?
Vejo como muito positivo. O tema meio ambiente iria passar ao largo da disputa eleitoral de 2010. As pessoas até tem medo de falar de meio ambiente, querendo dizer que a legislação é ruim, dizendo que quem defende o meio ambiente atrapalha o desenvolvimento. Mas parece que aos poucos as pessoas estão entendendo que a opinião publica quer a integração das duas coisas, meio ambiente e desenvolvimento fazem parte da mesma equação. São os ganhos secundários que a gente já pode perceber. Eu espero que todos os partido assumam, não só nos discursos e no programa no papel, mas no compromisso de efetivação das políticas.

O que a senhora faz em casa para contribuir para a preservação do meio ambiente?
Eu tento economizar água, luz, reciclar o lixo, ter aqueles cuidados básicos. Tenho uma família grande e tem que ter o cuidado, porque o consumo per capita tem que ser baixo. São cuidados normais, não adianta falar do macro se você não consegue fazer no micro. Eu tento fazer e passar para as pessoas de casa.

Ser presidente do Brasil é um sonho?
Olha, eu acho que uma questão com essa magnitude é algo que tem que ser entendido como parte de um projeto, não é um sonho individual. O Brasil nesses últimos 30 anos tem vivido um processo muito rico de construção de novas práticas, novas idéias, novos processos, nessa agenda do desenvolvimento sustentável. Estar conectada com essas mudanças que eu sei que irão acontecer nesses primeiros 30, 50 anos desse século é algo que me desafia. Eu disse que queira ser mantenedora de utopias, é isso que estou fazendo, juntamente com outras pessoas, sem a pretensão de ser exclusiva.

Quando vamos poder dizer se a senhora é ou não, efetivamente, candidata a presidência da República?
Quando o PV tomar essa decisão, em 2010. Mas não vamos antecipar. Eu acho um equívoco essa antecipação. Mal termina uma eleição já está se falando da próxima, é muito ruim para a ação dos governos e é muito ruim para a própria sociedade, parece que tudo é feito pensando em se eleger. Por que a gente não faz as coisas da forma correta e a eleição passa a ser uma conseqüência do trabalho bem feito e não um trabalho feito para ganhar as eleições?