22 junho 2009

Outro assunto

Apesar de não ter relação com o foco do blog, não poderia deixar de comentar o assunto da semana.

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Meu avô paterno era dentista prático. Foram retirados por seu boticão dentes de vários moradores da pequena cidade onde vivia, em Minas Gerais, lá pelos idos de 1950. Naquela época, quando algum dente doía, certamente estava perdido. Hoje não se faz extrações com tamanha facilidade, isso porque, com o passar dos anos, passou-se a exigir formação técnica e específica para exercer a odontologia e profissionais como o meu avô deixaram de existir. Foi assim com a maioria das profissões.
Porém, na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou decisão totalmente retrógrada no que diz respeito à capacitação profissional e aboliu a exigência de diploma para o exercício do jornalismo. Resolução coerente em um país que historicamente vem relegando a educação para segundo plano. Voltamos à época em que prática era considerada suficiente – e o jornalismo foi apenas a primeira profissão atingida.
Ouvi protestos das mais variadas pessoas sobre a decisão do STF. Para o meu médico, ela abre precedente para que, em breve, proclame-se algo como: “Farmacêuticos, por terem conhecimento similar ao de médicos, poderão exercer a medicina em áreas específicas”. Uma amiga também considera que pode ter seu diploma de assistente social invalidado, já que “qualquer um sabe dar cestas básicas”.
Para mim, a decisão do STF mostra, acima de tudo, desconhecimento da realidade da profissão. Jornalista não é fofoqueiro, contador de histórias ou escritor – apesar de ter um pouco dos três. Jornalista estuda durante quatro anos para aprender a lidar corretamente com as informações; para saber como abordar os mais variados tipos de entrevistados; estuda para ser intermediário entre fontes e público alvo – muito embora essa ligação possa ser feita, hoje, diretamente.
Jornalista não é fofoqueiro, contador de histórias ou escritor – apesar de ter um pouco dos três.

O STF simplesmente rasgou e jogou no lixo o meu diploma e o de milhares de jornalistas que se formam anualmente no país. Ainda riu das nossas caras, dizendo que perdemos tempo com essa faculdade quando poderíamos ter feito um curso que exigisse o conhecimento de “verdades técnicas”, como afirmaram.
Será que todo mundo sabe o que significam expressões como lead, clipping, press-kit, release, deadline; jargões como nariz de cera, foca, cabeça; e conhecem autores como Jesus Martín Barbero e Marshall Macluhan? Talvez tudo isso seja desnecessário para o exercício do bom jornalismo, como apregoaram os nobres juízes?
Nenhum de seus argumentos mostrou-se válido. Queixar-se de falta de liberdade de expressão no mundo atual, em que se pode criar blogs e sites e postar opiniões sobre quaisquer assuntos não faz o menor sentido. E nem precisamos chegar à internet, uma vez que os jornais impressos, na tentativa de aumentar a interatividade com os leitores, reservam páginas para as opiniões dos mesmos.
O que transparece da opinião do STF e de veículos de comunicação que comemoraram a abolição do diploma (como Veja e Folha de S. Paulo) é um ranço antiditadura totalmente deslocado no tempo. A lei que fez do diploma uma exigência foi, certamente, promulgada na tentativa de frear a liberdade de expressão, mas isso há mais de 40 anos! Não se pode contestar o salto qualitativo que a faculdade conferiu à formação do profissional de jornalismo. Mas, quem quiser que confie seus dentes a qualquer boticão.

15 junho 2009

Cadê as buzinas?

Desde a última semana estou em férias na minha terrinha natal, Apucarana (PR). Das inúmeras diferenças que pude comprovar in loco entre essa região e a minha nova morada - Rio Branco (AC) - o trânsito é a maior delas. Não pelo crescimento desenfreado da frota, problema que atinge os dois locais igualmente, mas pelo comportamento dos motoristas e, especialmente, pelo uso da buzina.
Os acreanos têm um caso de amor com ela; usam-na em toda e qualquer situação, seja para avisar que o semáforo está verde, seja para avisar que vai fazer uma conversão. Acredito que seja algo cultural. Mesmo quando o motorista da frente não está atrasando o trânsito, pode saber que será alvo de buzinas. Elas podem até não ser endereçadas a algum veículo específico, são disparadas a esmo, por costume.
Caminhando por Apucarana deparei-me com o silêncio na área central da cidade. Vários veículos dividiam as avenidas, mas não escutei as já rotineiras buzinas. Em Londrina, cidade vizinha de 500 mil habitantes, outra surpresa: o silêncio impressionou-me ainda mais, levando em conta o tamanho da cidade. Trafegamos por várias ruas da pequena Londres não sem tumulto no trânsito, mas sem o barulho cansativo das buzinas inquietas.
Tráfego caótico faz parte, há muito tempo, da vida de milhões de brasileiros, o que difere uma região da outra é a tentativa de torná-lo o menos estressante possível. E posso garantir que a redução do uso da buzina é fator determinante para fazer o tempo que passamos no trânsito ser mais agradável.

06 junho 2009

Dá uma cisma...!

Viajar de avião logo depois de um desastre aéreo que vitimou mais de 200 pessoas não é algo confortável. Todos aqueles temores que a gente sente na primeira vez que viaja parecem voltar quando pensamos na remota possibilidade de um acidente. Foi assim na minha viagem de ontem. Antes mesmo de decolar, assim que todos se sentaram, começou o tormento. Logo que o avião ligou as turbinas e as luzes baixaram, começou a sair uma fumaça vinda sabe-se lá de onde. Meu marido disse que isso sempre acontece, mas eu nunca, juro, nunca tinha reparado. Portanto, minha primeira reação foi de susto.
Na hora da decolagem, assim que o avião desgruda do chão e dá aquele impulso - e eu ainda desconfiada da fumaça -, instantaneamente penso: não vai subir, é pesado demais! Mas subiu. Superada essa fase, o voo entrou na etapa tranquila, até que a doce voz da comissária anunciou uma turbulência. Com a maior calma do mundo, como se estivesse nos dando, novamente, as boas vindas, ela fala:
"Senhores passageiros, informamos que estamos atravessando uma área de instabilidade. Mantenham os cintos atados". Eu que já estava dormindo de um olho só, levei a mão imediatamente à cintura na tentativa de atar mais o já apertado cinto de segurança. Mas não chegou a ser uma turbulência daquelas de dar medo, só sacudiu um pouco mais que o normal...
Entre um cochilo e outro, desconfiada de estar ouvindo barulhos diferentes, a viagem foi chegando ao fim e a hora de pousar (sempre a pior) se aproximando. Novamente levei a mão ao cinto de segurança, para dar aquela apertadinha extra, e voltei a poltrona à posição vertical. O avião foi perdendo altitude, se aproximando do solo, até encostar as rodas no asfalto. Esse impacto sempre me causa uma sensação de insegurança, reforçada pela freada brusca que gruda a gente na cadeira!
Apesar de não ser o acidente mais recente, na hora me lembrei daquele avião da TAM que "vazou" pela pista e foi parar num prédio próximo. Tinha a sensação de que a velocidade estava demais, impossível de ser contida a tempo. Mas foi.
Definitivamente não há motivo para temor; fatalidades simplesmente acontecem. Mas também, quem disse que o que eu senti era medo!? Como já dizia meu vô Tonico, é só cisma.