15 abril 2009

O mito


O Brasil todo conhece Chico Mendes, certo? Mesmo que não saiba detalhes de sua trajetória, com certeza já ouviu seu nome e algo sobre sua morte. Mas distante do Acre é impossível mensurar o que o líder sindical dos seringueiros, assassinado em 1988, representa para o estado.
A frase "Chico Mendes vive" está estampada em outdoors, camisetas e bibelôs vendidos a turistas. Com seu nome foram batizadas avenidas, escolas e parques.
O histórico do ex-sindicalista acreano relata que ele encabeçou a luta em defesa dos diretos dos seringueiros quando a pecuária avançava no estado e brigou pelo manejo florestal como forma de proteger a Amazônia - ideais que continuam vivos no discurso de uma de suas parceiras em vida, a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Chico Mendes foi assassinado no município de Xapuri, dentro de sua própria casa, que se tornou local de visitação, com a maioria do mobiliário preservado. Bem próximo dela encontra-se a sede da FUndação Chico Mendes, um pequeno museu que preserva objetos pessoais do herói acreano e resgata sua trajetória. Até mesmo a toalha que ele levava no ombro no momento dos disparos fatais está exposta lá.
Como pode-se perceber, Chico Mendes recebe honrarias dignas de herói e caminha para se transformar em um mito.


O perigo da mitificação

Mitificação é algo perigoso. Digo isso porque ela pode levar à paralisação, à credulidade excessiva. E quanto mais distante ficamos da época em que tal personagem viveu, maior a chance dele se tornar mítico. Chico Mendes ainda tem esposa e filhos vivos, que se lembram dele no dia-a-dia, com seus defeitos e qualidades. No entanto, com o passar dos anos essas pessoas também morrerão e restará a imagem construída dele, sendo que essa imagem pode receber retoques sem que haja necessidade de mantê-la fidedigna.
A mitificação também tende a ser um tanto injusta ao personificar uma luta que é de muitos. Normalmente, os que morrem de forma trágica tornam-se mártires, os que sobrevivem, apenas seus seguidores. O presidente Lula teria grandes chances de se tornar um mito caso tivesse, suponhamos, sido morto no início de seu primeiro mandato; hoje, após sete anos de governo, ele poderá ser considerado um herói nacional, mas não mito. Fidel Castro, se tivesse morrido na Revolução Cubana, possivelmente seria um mito, enquanto Che Guevara, velhinho e barbudo, apenas um de seus companheiros.
A necessidade do ser humano em ter heróis e criar mitos é um tema que atrai a minha curiosidade. Não estou julgando os méritos de Chico Mendes, apenas aproveitei a relevância de seu nome para debater esse assunto. O acreano certamente obteve várias conquistas para os seringueiros e em defesa da Amazônia. E agora, quem encabeça essa luta?

Um comentário:

joel disse...

Complicado heim!Seria Nelson Mandela um MITO se tivesse sido morto no áuge de sua luta contra o racismo? Ou será que ele o é?