29 abril 2009

Os bastidores de uma coletiva

Sempre quis fazer isso

Entrevista coletiva é um negócio chato. Digo isso porque, na maioria das vezes, o indivíduo a ser entrevistado se atrasa e também porque você corre o risco de não conseguir fazer pergunta alguma. No caso do Presidente da República então o número de questões é limitadíssimo e a possibilidade de questionamentos é previamente excluída pela assessoria. Mesmo assim, a visita de Lula e Alan García (presidente do Peru) ao Acre era notícia e toda a imprensa teria que cobrir. Então, fomos.
O cadastramento começou às 10h da manhã da última terça-feira (28), no Palácio Rio Branco (sede do governo acreano). Desse horário até às 11h30 ficamos passeando na Marisa para aproveitar o ar condicionado e minimizar o calor, intensificado pelos trajes "esporte fino". A chegada do presidente Lula estava prevista para as 12h, pouco antes disso entramos no palácio e nos abancamos no local reservado para a imprensa. Era um lugar agradável, graças, já que permaneceríamos lá por longas 4 horas.
O tempo de espera merece destaque por propiciar conversas e encontros inimagináveis em outras ocasiões. Era repórter nacional - da Folha, do Estadão, dO Globo, Valor Econômico - misturado com local e internacional (do Bloomberg e os peruanos que acompanhavam seu presidente).


Depois de duas horas e meia de espera

O cara do Bloomberg era um caso a parte, muito simpático e disposto a conhecer o local e as pessoas. Sediado no Rio de Janeiro, ele acompanha o presidente Lula pra cima e pra baixo e afirmou não se lembrar de um só evento em que o excelentíssimo houvesse chegado na hora marcada. "Uma vez ele atrasou três horas e em outra ocasião o evento foi cancelado". Ufa, ainda bem que ele veio!
Enquanto uns dormiam, outros acessavam a internet às custas do governo do estado e terceiros tagarelavam, os repórteres da "grande mídia" juntavam-se - e não podemos culpá-los por isso. Um cinegrafista peruano chamou minha atenção porque não conseguia parar de olhos abertos. Não sei se o coitado havia viajado a noite toda ou ficado na farra, mas o cansaço era visível. Não perguntei para não dar pinta do meu "castelhano" precário.
Entre uma observação e outra perdi a noção da hora e quando me dei conta eram 15h40! Estávamos há quase quatro horas esperando. Já haviam nos servido café, castanha cristalizada (uma delícia por sinal) e água, mas o estômago de todos, posso garantir, estava nas costas. Foi aí que anunciaram os excelentíssimos senhores Luis Inácio Lula da Silva e Alan García.
O presidente peruano é tão grande que chega a assustar! Já Lula parecia nervoso, com os olhos e a face vermelha. Respondeu entediado à pergunta sobre a saúde de Dilma Roussef (também, pudera). Foram feitas apenas seis perguntas: duas da imprensa internacional, três da nacional e uma da local. Cada segmento escolheu seu porta-voz.
Terminadas as perguntas, o mestre de cerimônias anunciou "Está encerrada essa coletiva de imprensa" e os presidentes saíram quase que correndo da sala. Atrás da imensa comitiva saímos nós, jornalistas, na expectativa de alcançar o presidente antes que ele entrasse no carro. Entrou ministro, assessor, Alan García, entre outros e nada do presidente. Foi aí que alguém disse que ele já havia partido.
Então é assim, minha coletiva termina sem aquela perguntinha corrida na prota do carro? Termina. Veja aqui o resultado sério dessa odisséia.

25 abril 2009

Queimada zero


Matéria divulgada hoje pela Folha de S.Paulo revela que estudo da revista científica Science concluiu que as queimadas são responsáveis por 19% do efeito estufa. O cálculo é o primeiro do mundo a mensurar o impacto do fogo no aquecimento global. O Sudeste asiático e a Amazônia lideram as emissões por queima de floresta, seguidos pela África.
Diante da notícia deve-se ressaltar a relevância da ação civil pública impetrada recentemente pelos Ministérios Públicos estadual e federal do Acre. A medida pretende proibir o uso do fogo por parte de agricultores dentro de dois anos, ou seja, a partir de 2011 ninguém mais conseguiria autorização para queimar em pedaços de terra no estado. Apesar de importante, a medida vem sendo questionada - e com argumentos que merecem análise.
A presidente da Fetacre (Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Acre), Sebastiana Miranda, explica que os pequenos produtores têm dificuldades tremendas de logística nos rincões no estado: nem sempre podem escoar sua produção e, por isso, a maioria planta apenas para subsistência. Comprar tratores e outros maquinários é algo muito distante da realidade dessas pessoas, impossibilitadas de compartilhar os mesmos com outros agricultores por motivos óbvios, como a falta de estradas.

Sebastiana reforça que dois anos é um prazo muito curto para exigir que todos os agricultores se adequem a medida. "Eles precisam de assistência técnica. Nossa sugestão é que a proibição seja gradativa", sugere a sindicalista. A Fetacre e a CUT (Central Única dos Trabalhadores) esperam conseguir uma audiência pública para debater o tema, reunindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e a classe interessada.

Ainda não se sabe se isso ocorrerá, porém já se pode adiantar que seria um debate bastante produtivo. É quando a defesa da natureza esbarra na questão social. A alternativa mais viável seria manter a ação civil pública e exigir o fim das queimadas, mesmo correndo o risco de prejudicar cerca de 30 mil agricultores? Ou ponderar e conceder um prazo maior de adequação e de agressão ao meio ambiente? Não cabe a mim responder, mas um debate organizado seria interessante e produtivo.

23 abril 2009

Vão doar!

Eu tentei doar sangue, tentei de verdade. Procurei o Hemoacre, em Rio Branco, fiz meu cadastro e até passei pela triagem para detectar anemia. Está tudo bem com minhas hemácias e leucócitos. Porém, fui barrada no quesito mais simples e essencial, meus 49,8 quilos. Segundo a responsável pela triagem, os 800 gramas eram peso da roupa, portanto eu teria um quilo a menos que o necessário para ser doadora.
A enfermeira ainda tentou me dar uma chance - bem como o chefe do Hemepar de Apucarana, onde doei pela primeira e única vez em agosto do ano passado - fazendo a medição da massa corpórea. Se estivesse dentro da faixa normal, eu doaria a quantidade mínima de 400 ml. Ela então dividiu 49 por 2,7, o que resultou em 18,14. "Ih", disse ela, "está abaixo, tinha que dar 18,5. Volta depois que ganhar esse um quilinho..."
Bom, não foi minha primeira frustração quando tentava doar sangue e esse não é o assunto mais importante do post. De acordo com a enfermeira que me atendeu o Hemoacre tem cerca de 50 doadores/dia, número insuficiente para manter o estoque, uma vez que o hemonúcleo da capital atende os 22 municípios do estado.
Por isso, faço uma campanha pública em favor da doação. Quem puder e tiver realmente noção do quão importante é esse ato, não espere mais um dia. O Hemoacre recebe doações das 7h às 18h, diariamente.

16 abril 2009

A estação dos alagamentos


Mais de 715 famílias em 17 bairros de Rio Branco já foram retiradas de suas casas por conta da cheia do Rio Acre, que atingiu hoje 15,28 metros, segundo informações da Defesa Civil na Agência de Notícias do estado. O Bairro Taquari é um dos mais atingidos pela enchente. No local, apenas canoas, caminhonetes e caminhões se aventuram na alagação.

Nem todas as famílias atingidas pela enchente foram retiradas de suas casas. Aquelas cujas residências ainda não foram totalmente inundadas permanecem nos bairros, sujeitas a contrair doenças e ao perigo de mais alagamentos. É o caso da dona-de-casa Rosária. Há 12 dias, desde que a água subiu, ela dorme em sua casa, circundada pela água, e assim que amanhece sai para a rua.
"A gente acorda e sai e passa o dia inteiro fora, volta só pra dormir", explica ela, segurando a marmita que lhe serviria de almoço, na calçada mesmo. Um garoto que faz o transporte dos moradores em uma canoa - e que não gosta muito de papo - diz que cobra R$ 1 por travessia e dificilmente fica parado.

Dona Rosária mora no Taquari há 24 anos e diz que nem todos os anos a enchente atinge essas proporções, porém "sempre alaga um pouco". Questionada sobre porquê não pede auxílio ao governo para ir a um abrigo público, ela desdenha: "As pessoas saem daqui igual cachorro, sem levar nada". Rosária também afirma não ter outro lugar seguro, como casas de parentes, para se abrigar.

Para agravar a situação, a Eletroacre cortou a energia nos locais atingidos pela cheia e os moradores estão contando com velas para permanecer em casa durante a noite. E previsões do Climatempo mostram que as chuvas devem continuar em Rio Branco pelo menos até a próxima terça-feira.
Além dos abrigos públicos, reportagem da Tv Acre de hoje mostrou que igrejas também estão se mobilizando e transformando seus terrenos em casas improvisadas. No entanto, nesses locais o governo não disponibilizará comida e outros mantimentos.

15 abril 2009

O mito


O Brasil todo conhece Chico Mendes, certo? Mesmo que não saiba detalhes de sua trajetória, com certeza já ouviu seu nome e algo sobre sua morte. Mas distante do Acre é impossível mensurar o que o líder sindical dos seringueiros, assassinado em 1988, representa para o estado.
A frase "Chico Mendes vive" está estampada em outdoors, camisetas e bibelôs vendidos a turistas. Com seu nome foram batizadas avenidas, escolas e parques.
O histórico do ex-sindicalista acreano relata que ele encabeçou a luta em defesa dos diretos dos seringueiros quando a pecuária avançava no estado e brigou pelo manejo florestal como forma de proteger a Amazônia - ideais que continuam vivos no discurso de uma de suas parceiras em vida, a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Chico Mendes foi assassinado no município de Xapuri, dentro de sua própria casa, que se tornou local de visitação, com a maioria do mobiliário preservado. Bem próximo dela encontra-se a sede da FUndação Chico Mendes, um pequeno museu que preserva objetos pessoais do herói acreano e resgata sua trajetória. Até mesmo a toalha que ele levava no ombro no momento dos disparos fatais está exposta lá.
Como pode-se perceber, Chico Mendes recebe honrarias dignas de herói e caminha para se transformar em um mito.


O perigo da mitificação

Mitificação é algo perigoso. Digo isso porque ela pode levar à paralisação, à credulidade excessiva. E quanto mais distante ficamos da época em que tal personagem viveu, maior a chance dele se tornar mítico. Chico Mendes ainda tem esposa e filhos vivos, que se lembram dele no dia-a-dia, com seus defeitos e qualidades. No entanto, com o passar dos anos essas pessoas também morrerão e restará a imagem construída dele, sendo que essa imagem pode receber retoques sem que haja necessidade de mantê-la fidedigna.
A mitificação também tende a ser um tanto injusta ao personificar uma luta que é de muitos. Normalmente, os que morrem de forma trágica tornam-se mártires, os que sobrevivem, apenas seus seguidores. O presidente Lula teria grandes chances de se tornar um mito caso tivesse, suponhamos, sido morto no início de seu primeiro mandato; hoje, após sete anos de governo, ele poderá ser considerado um herói nacional, mas não mito. Fidel Castro, se tivesse morrido na Revolução Cubana, possivelmente seria um mito, enquanto Che Guevara, velhinho e barbudo, apenas um de seus companheiros.
A necessidade do ser humano em ter heróis e criar mitos é um tema que atrai a minha curiosidade. Não estou julgando os méritos de Chico Mendes, apenas aproveitei a relevância de seu nome para debater esse assunto. O acreano certamente obteve várias conquistas para os seringueiros e em defesa da Amazônia. E agora, quem encabeça essa luta?

08 abril 2009

O trânsito (ou o caos)


Buzinas, buzinas, buzinas... Cuidado! Alguém pode ultrapassá-lo inesperadamente ou cortar a sua frente.
O trânsito em Rio Branco é caótico, especialmente nos horários de pico. São milhares de carros apinhando-se nas ruas estreitas e avenidas da capital acreana. A situação fica ainda pior quando há carros parados em locais impróprios, impedindo o uso das duas faixas. Semáforo vermelho nem sempre é sinônimo de carros parados - muito menos táxis! Ah, e assim que a luz verde acende, lá vem uma nova e impaciente buzina.
Não consegui encontrar dados precisos sobre o número da frota em Rio Branco, mas, visivelmente, a situação por aqui reflete o que vem ocorrendo em todo o país. A cada dia novos carros e motos lançam-se nas ruas e tentam conviver da melhor forma possível. O problema começa quando essa boa intenção desaparece e cada motorista quer chegar mais rápido a seu destino. Assim acontecem as imprudências, que transformam o ato de dirigir em um estresse desnecessário.
O número de veículos vem aumentando no país além do que as cidades podem suportar, é fato. A maioria delas não foi projetada nem preparada para esse boom. No entanto, ele aconteceu e não há remédio a curto prazo.
Seria ótimo se todos os que hoje dirigem veículos passassem a andar de bicicleta, desafogando as ruas. Utopia. Portanto, educação é o máximo que podemos pedir dos motoristas para que o trajeto de casa ao trabalho não seja motivo de aflição.

Correção

No post "A vista da minha janela" escrevi que existe uma reserva indígena no município de São Sebastião da Amoreira, no Paraná. Na verdade, quis dizer São Jerônimo da Serra. O alerta foi feito pela Luana, minha querida comparsa.

06 abril 2009

O Paraguai acreano

Quem mora no Paraná e até mesmo no interior de São Paulo tem o costume de ir ao Paraguai comprar eletrônicos ou quinquilharias que, carinhosamente, chamamos de 'muambas'. O Acre está muito distante do Paraguai, claro, no entanto quem mora aqui encontra em outro país sul americano esse comércio barato - e ilegal. Basta atravessar a ponte na cidade de Brasiléia (Acre) para chegar à boliviana Cobija.
Não me lembro muito bem do Paraguai. Estive lá há muitos anos, em Ciudad de Leste. Mas a sujeira das ruas e a invasão do comércio nas calçadas, em forma de camelôs, estão frescas em minha memória. Cobija é diferente. As lojas que oferecem produtos a preços módicos pertencem ao próprio comércio local. São pequenas lojas, lotadas de mercadorias dos mais variados tipos - desde bolsas até notebooks -, que vivem das vendas para os 'patrícios' brasileiros.
No entanto, os comerciantes de Cobija não são lá dos mais amáveis com os compradores. Na maioria das lojas não somos atendidos ao entrar, pelo contrário, precisamos questionar os vendedores sobre preços e outras dúvidas. Os produtos são vendidos em dólares (quando cobrados em cartão de crédito) ou reais, sendo que um real vale 2,90 bolivianos, a moeda local.
Passar pela aduana Brasil-Bolívia não é nenhuma dificuldade. Na ponte estreita, ladeada pelas bandeiras dos dois países, não encontramos polícia ou fiscais da Receita Federal. Há quem prefira deixar o carro confortavelmente estacionado do lado brasileiro e fazer suas compras a pé, passando pela ponte com as sacolinhas na mão. O comércio de Brasiléia deve ser o maior sofredor nessa história.
A pobreza é algo latente em Cobija, tão perceptível quanto a presença dos militares da Polícia Nacional de Evo Morales nas ruas. A cidade pertence ao Estado (ou Departamento, como é chamado) de Pando, o mesmo onde ocorreram as revoltas políticas que deixaram 13 mortas em setembro do ano passado. Talvez os cartazes que vi por lá denunciando suposta prisão política e tortura de uma mulher tenham a ver com sso...

05 abril 2009

Conto da vida alheia

Quando participei da oficina do projeto Rumos Itaú Cultural, no mês passado, a jornalista Eliane Brum nos deixou a árdua missão de fazer uma matéria com base na entrevista que realizamos com uma das participantes. A jovem tem uma história de vida cheia de altos e baixos e foi uma personagem muito interessante. O meu texto - "As amarras do passado" - e dos outros participantes podem ser conferidos no link http://norumo.net/?p=153

Aí vai um trecho:

A voz de Laura ecoou no rádio pela primeira vez quando ela tinha apenas 12
anos. Depois da breve apresentação de seu programa radiofônico, um beijo
endereçado ao leito de um hospital. Era lá que a pessoa mais amada no mundo por
ela - sua mãe - estava naquele momento, dividida entre a felicidade da estreia de
sua garotinha e as dores físicas.