30 março 2009

O Rio


A área central de Rio Branco é a parte mais linda da cidade. E deve grande parte de sua beleza à presença do rio Acre, que divide o centro em dois. De um lado, o Mercado Velho, todo restaurado desde que foram filmadas aqui cenas da minissérie Amazônia, exibida pela Rede Globo; do outro, o calçadão da gameleira - uma árvore de 2,5m de diâmetro com mais de 20 metros de altura, que marca o local onde começou a expansão da capital acreana.
A ponte para travessia de pedestres tem arquitetura moderna e, à noite, torna-se ainda mais bonita com a iluminação em tons de azul. Uma vista linda e garantia de boas fotos. No entanto, o rio que embeleza a cidade também é motivo de tristeza nessa época do ano - chamada de inverno devido à alta ocorrência de chuvas. Nesse período, a vazão do rio aumenta e deixa diversas famílias desabrigadas à sua margem.
O nível do rio Acre chegou a até 14,8 metros neste ano (quando foi tirada a foto acima), quando mais de 14 famílias foram tiradas de sua casas e levadas para um ginásio improvisado como abrigo pela prefeitura. Agora, as águas baixaram para 12,5 metros (registro de hoje, 30 de março). No entanto, o volume de águas do rio Acre na região de Xapuri aumentou 92 centímetros no último domingo, o que deve refletir em Rio Branco, de acordo com a Agência de Notícias do Acre.
Se quem teve que deixar sua casa e ainda se arriscar a perder parte dos móveis passava por momentos de sofrimento, outros aproveitavam a cheia do rio para pescar (foto).


A partir de agora, o rio Acre não deve retornar ao limite de transbordamento, já que a partir de abril as chuvas se tornam mais escassas, deixando-o baixo como na foto de abertura desse blog (tirada em julho do ano passado, quando passei férias aqui). De acordo com moradores de bairros atingidos pela enchente do rio (como o 6 de agosto), eles não precisam deixar suas casas todos os anos. No entanto, com a inconstância cada vez maior do clima, não se pode confiar muito em previsões e ser pego de surpresa é sempre um risco.
Resta saber se moradores, sociedade organizada e governo tomarão atitudes para que essa tristeza não continue se repetindo sistematicamente.

29 março 2009

Palavras minhas perdidas por aí



Tudo que escrevo eu guardo, seja um comentário sobre tema atual, seja um conto ou apenas uma tentativa de poema. Mesmo que não publique em lugar algum, eu guardo. Minha pasta "documentos" no computador está repleta de textos e pedaços deles, bem como meus blocos de nota - habituais receptores de minha escrita em horas impróprias.
No entanto, dia desses eu usava um computador alheio para postar uma crônica em um blog também alheio. Como de praxe, escrevi o texto inicialmente no Word, para que tivesse tempo de pensá-lo melhor. Uma vez terminado, transferi-o para a página de postagem do blog e publiquei. Ok, ele estava na página inicial.
Desliguei o computador, não sem antes titubear diante da pergunta fatídica do Word: "Deseja salvar o documento?". Como já estava postado e para evitar que alguém tivesse acesso ao original, cliquei "não" e saí para o almoço. Ao retornar, duas horas depois, reabri o blog para ler os novos posts e não encontrei o meu. Eram muitos, ele já deveria estar na página de mais antigos, pensei.
Procurei, mas nada. Minha crônica, minha doce coordenação de palavras havia sumido! Nem o Word poderia trazê-la de volta, eu havia impedido que ele o fizesse. A constatação de que nunca mais leria tal texto deixou-me abalada. Poderia tentar reescrevê-lo, ainda estava fresco na memória, mas jamais aquela sequência de palavaras se repetiria em sua completude.
Aonde estariam naquele momento as minhas palavras, lidas por ninguém além de mim mesma? Estariam pairando à espera de que eu as resgatasse e lhes devolvesse a unidade? Ou já haveriam se espalhado esquecendo a breve ligação? Possivelmente sim. Afinal, palavra não existe para ser aprisionada.
Naquele e nesse momento as palavras que chamo de minhas pairam por aí. Mas não a minha espera e sim no aguardo de qualquer um interessado em reordená-las conforme a própria verdade.

Eliane Brum cita "forasteirismo"

Este blog foi citado pela jornalista Eliane Brum no site oficial do projeto Rumos Itaú Cultural. A repórter especial da revista Época esteve em Rio Branco na última semana ministrando oficina sobre a relevância dos personagens no trabalho jornalístico. Ao final da oficina fiz uma breve entrevista com ela.
Obrigada pela lembrança Eliane!

26 março 2009

A vista da minha janela

Estou no Acre há dois meses e só vi a mata pela janela. Tenho escrito - pouco, admito, mas irei intensificar a atividade - sobre a vida urbana em Rio Branco, que reserva surpresas para quem cai de paraquedas por aqui, como eu. Aspectos banais da vida dos agora acrianos são, para uma forasteira como eu, grandes novidades.
No entanto, quem me lê deve estar pensando "Amazönia? Mas cadê a floresta?" É eu sei. E pretendo preencher essa lacuna da minha vida amazônica em breve, breve mesmo.
Ouvi dizer que bem próximo à capital existe uma reserva indígena. Segundo a responsável pela pasta de turismo do Governo do Estado, conhecida por muitos estrangeiros e ignorada por muitos habitantes locais. Pretendo conhecê-la nos próximos dias. Claro que, primeiro, preciso saber onde fica e como se chega lá.
Já visitei uma reserva indígena no Paraná, localizada num município chamada São Sebastião da Amoreira, no norte do estado. Lá, várias famílias produziam seus artesanatos, como cestas de palha e colares, que eram vendidos pelos responsáveis nas cidades vizinhas. Lá vi crianças correndo sem medo de serem atropeladas, expostas ao risco de se machucarem, como é digno da infância.
Era uma espécie de chácara comunitária em que reinava a harmonia e uma dura hierarquia. Talvez possa esperar o mesmo modelo da reserva acriana que pretendo conhecer.
Mas ainda não é o bastante. Estou cada vez mais sedenta por conhecer o estado como um todo, navegar pelos rios até cidades vizinhas e até, quem sabe, encarar uma viagem de barco de sete dias até Santa Rosa do Purus. Fico imaginando quanta coisa bonita, assustadora, encantadora, ou simplesmente diferente posso encontrar pelo caminho.
Farei isso em breve.

Mais que mero jornalismo


Quando Eliane Brum chegou à Biblioteca da Floresta, em Rio Branco (AC), com uma mochila nas costas, ela era próxima demais do meu ideal de repórter de impresso. Delgada, com sapato de salto grosso, mostrou-se prática e desprendida de padrões. Na verdade, a jornalista gaúcha de 43 anos e 20 de profissão tem conteúdo demais para caber no estereótipo de tailleur e saltinho.

Eliane veio até o Acre falar com aspirantes a jornalista sobre o tema Em Busca do Personagem: um olhar singular*, sua especialidade. Autora de três livros, frutos de investigação e reportagens para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e para a revista Época, em que trabalha há nove anos, Eliane procura “vidas que ninguém vê” (título de sua extinta coluna no jornal e de seu segundo livro).

“Descobri que a busca do invisível era minha singularidade quando já fazia isso há 10 anos”, declara a jornalista. Eliane emociona-se ao falar de entrevistados que ultrapassaram o limite de proximidade e tornaram–se amigos queridos. Suas reportagens contam histórias surpreendentes de vida, pontuadas por um humanismo descarado. Quando lê seus próprios textos, ou outros que admira, a emoção dá o tom.

Eliane não tem muita afinidade com o microfone, tanto que às vezes se esquece de levá-lo a boca, exigindo profundo silêncio de sua audiência. E vale a pena. Depois de mais de seis horas de oficina, a experiente jornalista ainda respondeu algumas de minhas perguntas. Em seu rosto poderia haver um pouco de cansaço, mas nenhuma contrariedade.

Eliane tinha dúvidas sobre a profissão até pouco antes de concluir a faculdade, O que existia era um prazer imenso em ler. “O livro foi um marco na minha vida porque eu era uma criança triste e com o livro eu descobri que podia viajar, conhecer outras vidas além da minha”, revela a jornalista, que começou a escrever em pequenos pedaços de papel.

O encanto pela profissão foi despertado por um professor apaixonado por reportagem – hoje, não por coincidência, ela própria o é. No último ano surgiu a oportunidade de um estágio no Zero Hora como prêmio de um concurso que ela venceu com uma matéria sobre todas as filas que enfrentamos durante a vida. A estada no diário porto alegrense durou 11 anos. “Foi lá que me descobri jornalista”, afirma.

Adepta da canetinha, Eliane raramente grava suas entrevistas, mas garante que anota todas as palavras dos entrevistados, bem como suas expressões e movimentos. Apesar de já ter escrito alguns contos, ficção não atrai tanto a jornalista para quem “a realidade é tão mais surpreendente”.

No início da oficina, Eliane declarou que estava lá para aprender. No entanto, o que conseguiu foi nos contagiar e mostrar que jornalismo e humanidade podem, sim, ser um binômio.

* A oficina de Eliane Brum fez parte do projeto Rumos Itaú Cultural