08 julho 2008

Ambulantes



Estou em Rio Branco (AC) desde o último dia 22. Como sulista perdida em uma terra atá então desconhecida, muitas coisas me surpreendem a todo momento. Uma característica interessante da capital é a presença, em cada esquina e porta de banco, de vendedores ambulantes. Diariamente, também é possível encontrá-los no centro da cidade, onde suas barracas ocupam mais de três quadras numa modalidade ao ar livre do camelódromo de Londrina (PR).

Na verdade, eles não são tão ambulantes assim, já que não percorrem as ruas oferecendo seus produtos, mas abancam-se, por exemplo, nas escadarias das agências bancárias. Talvez o intenso calor explique isso. Outro dia, em frente à Caixa Econômica, estavam nada menos que quatro pessoas. Umas, vendendo relógios, balas, chicletes; outras, garrafas pet cheias de um líquido que cura todos os males.

Um dos produtos de rua comuns ao Paraná e à Rio Branco é o famoso churrasquinho, vendido em vários pontos estratégicos da cidade, como entradas de supermercados. Mas os acreanos oferecem um algo mais que os sulistas não conhecem. O espetinho aqui não vem desacompanhado. Por apenas 1 real, você compra a carne, farofa e um copo de plástico cheio de macaxeira (mandioca). Um churrasco completo. Quer melhor?

O tormento das formigas

Retiro o que escrevi no texto anterior. Não é a mudança constante de horário do meu celular que mais me incomoda em Rio Branco, mas sim a onipresença das formigas. Elas são incrivelmente pequenas e estão por toda parte! Dia desses, invadiram um pote cheio de pão de queijo que eu havia deixado em cima da geladeira. Alguém já viu, em outra parte do mundo, formigas que comem pão de queijo?

Tirando o bom gosto das bichinhas, não há nada de mais irritante que formigas invadindo sua comida. E não é só isso. Elas estão no chão do quarto, nas roupas que penduro no varal e outro dia, surpreendi uma subindo em minha perna enquanto eu usava o computador.

Uma vez, quando treinava basquete no colégio, estava preparando-me para arremessar, olhei para o chão e vi uma formiga. Pisei nela sem piedade, ao que minha treinadora, com pena do pobre inseto, passou-me um sermão em defesa do bicho que não havia feito nada de mal. Senti-me culpada - acreditem! -, afinal, a pobre formiga nada havia feito a mim.

Ainda hoje me lembro dessa passagem e tento não matar esses pequenos insetos à toa. No entanto, quando acordo e vou até a pia de minha casa em Rio Branco e deparo-me com um "enxame" dessas formiguinhas nojentas esqueço toda a piedade e massacro todas. Pior que isso, estou ficando desalmada, pois as mato sem que me tenham incomodado, apenas para evitar que o façam.

O mistério do relógio

Nada tem me incomodado tanto e me causado tantos contratempos em Rio Branco (AC) do que a teimosia do meu celular em manter o horário de Brasília. No dia em que cheguei, ajustei-o conforme a hora local e fui dormir. Acordei lá pelas tantas, olhei para o celular e já eram 11h45. Levantei meio que correndo e dei uma arrumada na casa; já eram 12h30 quando fui preparar meu almoço.

Saí então para comprar uma mesa para a sala. Perguntei na loja se eles entregavam e, como já eram 15h10 e eu ainda tinha outras coisas para fazer, pedi que ligassem antes para confirmar se haveria alguém em casa. Cheguei por volta das 17h e supus que a entrega já não seria mais feita. Para minha surpresa, a moça da loja ligou-me faltando exatos cinco minutos para as 18h e o rapaz fez a entrega às 18h15. Agradeci e pensei até em dar uma gorjeta para o coitado que estava trabalhando depois do horário comercial.

Minutos depois meu namorado chegou do trabalho e só aí percebi que havia passado o dia todo com o relógio adiantado em uma hora (diferença atual do fuso Brasília-Rio Branco). Ajustei-o novamente antes de dormir, ponderando que, talvez, não o tivesse feito no dia anterior.

Dormi tranqüila. Despertei no outro dia às 7h30. Havia decidido fazer uma matéria aqui sobre os paranaenses que vivem no Acre e meu primeiro entrevistado havia marcado comigo por volta das 9h30, 10h. Combinamos que eu ligaria antes. Por mais de uma hora tentei comunicar-me com ele e seu celular caía direto na caixa postal. Irritada, saí em busca de outro entrevistado, uma mulher, dona de um colégio.

O sol queimava minha cabeça enquanto eu andava rumo a não sei onde. Sem encontrar o endereço correto, mesmo perguntado a deus e o mundo (os acreanos são ruins de direção) decidi procurar um lugar para almoçar. Eram 11h20 quando entrei em um self service e a comida ainda estava sendo finalizada. Aguardei uns minutos, peguei e comi sem pressa, pois queria esperar até o meio-dia para dar a última ligada (ou descartar meu entrevistado) e falar com meu namorado durante seu almoço no trabalho.

Almocei, comi sobremesa, e saí do restaurante exatamente 12h10. Liguei de novo e, dessa vez, o prefeito (entrevistado) me atendeu. Liguei então para o meu namorado, que me respondeu cochichando, como se não pudesse conversar. Desliguei. Minha entrevista havia sido remarcada para às 15h e resolvi ir para casa tomar um banho (o sol acaba com a gente).

Por volta das 13h15, meu namorado liga em casa e diz que está em horário de almoço. Perguntei se havia saído mais tarde, mas não, eram 12h15 ainda! Meu celular havia me pregado nova peça. Só aí entendi a estranheza do dono do restaurante quando, às 10h20, uma morta de fome já perguntava pelo almoço.

Depois de uma semana lutando contra a teimosia do celular, desisti de mudá-lo e ajustei-me a ele. Agora, olho as horas e penso, automaticamente, uma para trás. O fuso horário tem sido assunto marcante nesses dias que estou passando aqui, já que o Acre deixou de ter duas horas para ter apenas uma a menos em relação à Brasília. Isso aconteceu no dia que cheguei. Se melhorará a vida dos acreanos? O governo diz que sim; o povo, pelo que tenho ouvido, acha que não.

De minha parte, basta que meu celular me informe o horário correto de onde eu estiver.

La vie en Acre...






Índios, mato por todos os lados, um calor infernal...
Vim para o Acre com essa visão limitada que muitos de nós, sulistas, temos da região norte do país. Desses tópicos, o último é verdadeiro. O termômetro que não baixa dos 25 graus me atinge de forma peculiar; todos ao meu redor estão acostumados a suar em bica todo o dia e o barulho de ventiladores e ar condicionado já não os incomoda. Mas, para mim, tem sido um tormento que culmina com dores de cabeça e muito cansaço.

Fora essa característica comum a toda à região, a cidade de Rio Branco é considerada uma das melhores capitais do norte (em Boa Vista, Roraima, por exemplo, só existe internet discada!) Toda reformada, sua área central merece elogios pela conservação (exemplo é o Palácio do Governo, na foto). No entanto, a poucas quadras do centro torna-se visível o que considero o maior problema da capital: a falta de infra-estrutura urbana.

No bairro em que estou hospiedada, bem próximo do centro, há poucas calçadas, montes de areia acumulam-se nas laterais das ruas (foto) e há esgoto a céu aberto. Dia desses, quando ia ao mercado, deparei-me com um rato transitando por ali. Carências que nos são comuns apenas nas periferias existem, aqui, na área central.

Isso talvez justifique-se pelo pouco tempo de existência do estado, que comemorou no último mês 46 anos de emancipação política e, possivelmente, o início de seu desenvolvimento efetivo. Uma paranaense que chegou aqui na década de 70, disse-me que o Acre naquela época assemelhava-se com o Paraná de 1950. Tomando essa conta como parâmetro - mas levando em consideração o desenvolvimento nacional mais acelerado - suponho que nos dias atuais os acreanos convivam com problemas comuns no sul de dez anos atrás.

Por enquanto, isso é, para mim, o Acre.