25 junho 2008

Papo de salão

Estava eu em um raro momento de embelezamento. As mãos, tensas, estavam esticadas para a manicure ao mesmo tempo em que a cabeleireira puxava meus fios como se fosse arrancá-los. Enquanto torcia para não sair do salão sem um pedaço dos dedos e careca, escutava – era inevitável – o papo animado das duas moças.
- Nossa, você viu o carro novo da Marlene, que ela ganhou do marido?
- Pois é, é um “Audio” A3, chiquééérrimo! Andei nele outro dia quando ela me deu carona. Diz que o marido trocou o dele e passou esse pra ela. Aí, sabe aquele Palio bonitinho que ela tinha? Deu pra filha.
Entendi que a Marlene era uma das clientes do salão que tinha horário fixo toda semana. Fiquei com pena da mulher. Além de sofrer horrores, ter a cutícula apertada e arrancada, os cabelos puxados e escovados, ainda era alvo de fofocas. Pobre Marlene...
- Ouvi dizer outro dia que o marido dela troca de carro todo ano – ainda a Marlene.
- É verdade, troca mesmo. Ele acabou de comprar um daqueles Citroen “Palace”, lindo demais.
- Ai, mas trocar todo ano pra mim já é “sustentação”! Finalizou grandiosamente a manicure.
Em um primeiro momento tive vontade de rir da conversa despreocupada das duas – despreocupada tanto no quesito discrição quanto gramatical. Quis fazer críticas bem humoradas ao jeito incorreto de falar das duas, mas não havia ninguém perto suficiente que eu pudesse chamar sem que elas imediatamente não me fitassem.
Diante disso, continuei ouvindo a conversa e passei por três estágios de ânimo. O primeiro, da crítica, da vontade de tirar um sarrinho nas duas; o segundo, da pena, porque elas não tinham instrução suficiente para saber que estavam falando o português incorreto; e, finalmente, o último, o da irrelevância. Irrelevância minha, não delas.
Que importância tinha, afinal, se as duas sabiam ou não o português correto? Seria eu, por acaso, melhor que elas por saber o significado da palavra “ostentação”? Felizes delas que não precisavam se preocupar com esses detalhes que nos aporrinham no trabalho, nos estudos, na leitura diária, na inconveniente interrupção de conversas animadas para corrigir o pai ou o namorado.
O papo continuava.
- Nossa menina, te falei que minha mãe está ruim demais?
- Ruim de quê, não falou não?
Eu já não tinha vontade de rir quando a manicure, limpando os excessos de esmalte nas minhas unhas, finalizava seu serviço e a conversa com essa manjada exclamação.
- Nervo “asiático” menina!

Um comentário:

Anônimo disse...

kkkkkk, eu e o Miguel rindo muuuuuuuiiito! Tb tive problema de nervo "asiático" na gravidez...hehe