25 outubro 2007

De "Tropa..." a "Dom Casmurro"

Ele não é o Capitão Nascimento, que não é herói

Preocupa-me a maneira como os jovens estão reagindo ao filme Tropa de Elite. O suplemento semanal Folhateen, da Folha de S.Paulo, mostra que frases de efeito do Capitão Nascimento - personagem muito bem interpretado por Wagner Moura – estão sendo usadas no dia a dia dos adolescentes em fase escolar como exemplos de coragem e heroísmo. Partindo desse pressuposto, é natural que esses mesmos adolescentes considerem corretas todas as atitudes do supracitado personagem.

Considerando a capacidade de compreensão ainda em formação dos adolescentes, o filme deveria ser proibido para menores de 20 anos. Vou explicar melhor antes de ser apedrejada: a visão do narrador, seja de um filme ou livro, tende a ser considerada correta por seus espectadores ou leitores. Dessa forma, a opção pelo Capitão Nascimento como narrador é muito perigosa. Me voltarei ao melhor e mais polêmico exemplo de nossa literatura no que concerne à complexidade de um narrador: Dom Casmurro.

Ao expor a visão de Bentinho em primeira pessoa, Machado de Assis também fez uma opção corajosa, com o claro intuito de instigar a interpretação do leitor. Quem não conseguiu fazê-lo, tem Capitu como uma adúltera, e ponto final. De maneira correlata, ao colocar Nascimento como narrador, o diretor José Padilha faz com que muitos de seus espectadores considerem a visão do policial como correta. Pelo simples fato de ele estar contando a história, torturar virou coisa aceitável e a máxima de que “bandido bom é bandido morto” passa a ser verdadeira.

Aí está o perigo. Não foi isso que o diretor quis passar. Nascimento não está certo em tudo que faz. Aliás, está bastante errado – a não ser pela sua postura incorruptível. O capitão coloca seus interesses pessoais acima da lei e até mesmo do direito de vida dos outros. O filme é excelente, bem roteirizado, mas corre o sério risco de dar um mau exemplo àqueles não tiverem consciência suficiente para analisá-lo de forma correta.

05 outubro 2007

A contraditória solidão do cárcere

Delair Garcia

Eles eram oito, mas apinhados em um local feito para abrigar quatro homens. Estavam sentados nas camas em meio a garrafas pet esparramadas pelo chão e pratos com restos de comida, na última cela do minipresídio. O aparelho televisor mal sintonizado era a única distração, além das páginas de revistas com mulheres nuas coladas na parede. O ambiente úmido, meio escuro e incoerentemente solitário da cadeia não me intimida mais, no entanto, o fato de estar ali para fotografar menores transtornou-me.
Apesar da ficha de gente grande – três estavam condenados por latrocínio – eram apenas adolescentes. Bonitos, fortes, e (preconceituosamente reparei) brancos. A preponderância da pele negra – que ocorre nas celas adultas - não se aplicava àqueles menores.
Ao primeiro pedido do fotógrafo, taparam os rostos com camisetas e bonés e fizeram poses para as fotos, sem indagações; só depois perguntariam onde seria usado o material. Perguntei-lhes se tinham conhecimento de que não deveriam estar lá; é claro que sim. “To querendo entrar nessa de Educandário, não quero ficar aqui não”, disse um deles cuja tatuagem nas costas, apesar de incompreensível, não esquecerei. Era o único do qual eu conhecia o crime em detalhes: roubo seguido de morte. Era ele o responsável pelas diversas facadas que mataram um dos professores mais queridos da cidade.
Os motivos do crime permanecem incógnitos para a opinião pública, embora saibamos que o jovem mantinha relacionamentos íntimos com a vítima. Estranha-me como, mesmo sabendo de seus crimes hediondos, senti pena daqueles meninos, jovens e tão sem perspectivas. A sociedade, provavelmente, não lhes dará outra chance, nem tampouco eles mesmos. Famílias desestruturadas, pais criminosos, curiosidade, ingenuidade... o que justificaria dez facadas no peito de um homem – de bem ou não?
Tive tempo de indagar-me sobre isso enquanto meu colega pedia para que eles mudassem de posição, sentassem nas camas, virassem de costas, tudo com para garantir que, embora incógnitos, pudessem ser estampados na capa do jornal. Agiam como se não tivessem direito de escolha. Por que, afinal, eles tinham que tirar fotos? Não sabiam, mas em um local tão carente de atrativos, aquele momento de flashs deve ter rendido assunto para todo o final do dia ou da semana.