15 agosto 2007

LIVRO

Este é o primeiro capítulo do meu livro. Na verdade, ele está emperrado. Um pouco por falta de tempo, um pouco por desleixo. Vou começar a publicá-lo aqui, em parte, e minha esperança é que isso me estimule a terminá-lo.

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Casou-se aos dezoito. Amava os olhos e a pela clara do marido, com quem havia namorado desde os longínquos treze anos. Uniram-se para toda a vida na Capela de Santo Antônio, na pequeninha Jangada, norte de Minas Gerais. Mas toda a vida parecia muito agora, passados vinte e dois anos, quatro filhos e muitas lágrimas. Naquela noite decidiu-se a falar e pôr um ponto final naquela situação. Foi aí que ouviu o romper da porta.
- Estou com fome gazela, o quê tem de janta?
- Está em cima do fogão, na panela, acabei de esquentar.
Jurandir Vicunha, herdeiro de uma fortuna em fazendas de café, não havia começado o Ensino Superior, no entanto, tivera instrução suficiente para se tornar um homem elegante. Ela concluía que os anos de amargura e lida na fazenda fizeram-no essa pessoa embrutecida, arrogante. No entanto, tinha razões suficientes para desconfiar da genética, já que seu pai, o homem mais elegante durante sua juventude, transformara-se também em um grosseiro.
Agora, aquele homem voltando da cozinha com o prato abarrotado de arroz e feijão, nem parecia ser a mesma pessoa com quem se casara há mais de vinte anos.

Lembrou-se que ele, simpático com todos durante a recepção, a levou para um lugar escondido e jurou-lhe amor eterno, mesmo após já tê-lo feito diante do padre e da assembléia.
Um sorriso não se esboçava no rosto de Jurandir há vários anos, nem mesmo nos momentos de prazer. Esbravejava contra a esposa, os filhos, a fazenda que já não rendia lucro e os irmãos, que há dez anos brigavam pela herança do pai. Enquanto a briga rolava, ele ia gastando o que seria a sua parte em bordéis miseráveis, com mulheres sebentas. Ela temia que ele a transmitisse alguma doença trazida desses lugares, mas jamais ousara dizer-lhe isso.

Tentava desvencilhar-se quando, já tarde da noite, ele a agarrava, mesmo depois de ter se divertido com suas mulatas, mas não conseguia vencê-lo. Para ela aquilo já virara rotina e conseguia, após anos de concentração, desviar seu pensamento daquela cama, que considerada imunda. Imaginava-se em um belo campo de flores, correndo entre margaridas e chuvas-de-prata que roçavam levemente em sua perna. Quando voltava à cama, dormia com o coração cheio de paz.
- Você não vai jantar, gazela?
- Não, já comi.
Ela sabia o quanto o irritava que não o esperasse para jantar. Na verdade não havia comido nada, mas não sentia fome. Pensara o dia todo na conversa que teria com o marido logo mais e isso lhe impedia o apetite. Permaneceu por todo o tempo à mesa, sustentando o rosto com uma das mãos, olhando para o nada. Como era de costume, o marido também não lhe dirigiu a palavra, levantou-se e deixou o prato na mesa, com as migalhas espalhadas sobre o forro carcomido.
- Jurandir, preciso te falar uma coisa.

O marido, já deitado no sofá com os pés em cima da mesa de centro e palitando os dentes, não esboçou reação ao chamado da esposa, acuada ao lado da porta. Havia conversado muito durante a semana com a única irmã que a ouvia e chegara a conclusão de que tinha forças para pedir o divórcio. Possivelmente viveria na casa de parentes após a separação, já que Jurandir ficaria na fazenda de sua família.
- Eu quero o divórcio...
O marido tentou demonstrar indiferença, mas sua pálpebra tremia revelando a tensão. Desligou a televisão e passou pela esposa sem olhá-la fixamente, porém roçando-lhe o braço com certa violência. Seguiu para o quarto. Uma força súbita tomou conta dela, que saiu gritando pelo corredor sem se importar com o filho de quinze anos que preferira passar o feriado na fazenda a ir para a cidade na casa do avô.
- Você não pode mais negar que o nosso casamento é uma instituição falida Jurandir, não dá mais, chega!
O grito final veio acompanhado de um tapa cheio de fúria que a fez cair e bater com a cabeça no braço do sofá de madeira de lei, no mesmo instante em que o filho corria ao seu encontro sem conseguir ampará-la.

Eu tenho!


"O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre
Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre"
"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais"
"Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
...
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
...
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir"
"Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão"
Poucos artistas têm a capacidade de impressionar seus constantes ouvintes como Chico Buarque. Na realidade, não consigo apontar nenhum na atualidade que se compare a ele. Muitos dos excertos acima são de músicas antigas do artista, outros recentes, mostrando que a criatividade do mesmo continua intacta.
Saber manusear as palavras com tamanho zelo, com tamanha precisão, não é para qualquer um. Pelo contrário, é para poucos. Quem consegue descrever o amor tantas vezes e de maneiras tão diferentes e verdadeiras deve ser louvado. Para cada tipo de amor, uma canção de Chico.
Na primeira faixa de seu CD Duplo "Carioca", ele entoa Voltei a cantar porque senti saudade, de Lamartine Babo. Ele pode até ter sentido, mas a nossa, com certeza, era maior.

14 agosto 2007

A Sampa que eu conheci

A Paulista que eu não vi






Finalmente, conheci São Paulo. Demorei vinte e três longos anos para ir à cidade que nunca dorme (embora estivesse bastante sonolenta no último domingo). Não enfrentei uma avalanche de pessoas no metrô e consegui assento na maioria das linhas em que andei; tive dificuldade em encontrar um lugar onde pudesse tomar café, às sete da manhã; andei pela Paulista sem esbarrar em outro transeunte.
Felizmente, o sossego do domingo não foi capaz de encobrir os principais traços da cidade, que eu ansiava por perceber. Na Fnac, mergulhei em uma variedade de cultura tão fascinante que perderia o dia por lá, onde também tomei o chocolate quente mais caro da minha vida. Na feira de antiguidades
no MASP, um lampejo da década de 50 com um casal de cantores, à caráter, entoando um belíssimo Eu sei que vou te amar.
Atravessei a avenida e olhei para trás para contemplar a grandiosidade das sedes dos principais bancos e me espantei com a quantidade de mendigos na rua sem fim. Fui abordada por aspirantes a atores, que me ofereceram entradas "mais em conta" para peças de teatro.
Como eu imaginava, uma cidade banhada por cultura. Em cada estação de metrô, uma idéia que eu gostaria de copiar: máquinas de livros. Como em filmes, suas moedas se transformam em clássicos de Machado de Assis ou Dostoiévski.
Contrariando minha primeira frase, não conheci, apenas estive nessa cidade que oferece inúmeros enfoques e é fonte inesgotável de entusiasmo criador. E tudo isso, sob uma fina e constante garoa.