12 julho 2007

Laudo revela "modo operandis"

Reportagem publicada hoje na Folha de S. Paulo (Laudo da OAB aponta mortes sem confronto) traz à tona um fato de extrema relevância sobre a guerra contra o crime que se desenrola no Rio de Janeiro – e não é de hoje. Um relatório encomendado pela Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) revela que a polícia carioca matou fora de confronto na favela conhecida como Complexo do Alemão. Ou seja: assassinou.
De acordo com o documento, 13 das 19 vítimas tinham ferimentos de balas nas costas; outras, perfurações por armas brancas. Agora, a OAB vai pedir para que o Ministério busque identificar os policiais responsáveis pelas mortes. No entanto, a chance de que isso realmente aconteça é remota (na minha modesta opinião).
A leitura da matéria me remeteu, imediatamente, ao livro “Rota 66”, do jornalista Caco Barcelos. O livro relata, em detalhes, vários casos de execuções cometidas pelo esquadrão de elite da polícia carioca nas décadas de 80. Supostos bandidos, ou jovens “arruaceiros”, eram abordados de maneira violenta e, sem tempo para se defender, eram assassinados com tiros à queima-roupa. Depois, os policiais se encarregavam de levar os corpos para o hospital (horas depois de desmontarem os locais do crime).
Após anos de pesquisa, o jornalista pôde contar as histórias provando a culpa de cada um dos policiais; escalando, inclusive, os maiores matadores. O que me preocupou ao ler a matéria da Folha, hoje, é que a situação se repete duas décadas depois, na mesma cidade, com os mesmos atores (isso, considerando a veracidade do relatório da OAB).
O documento acrescenta, inclusive, que a polícia agiu para acobertar crimes praticados por eles mesmos”. Não me interessa saber se eram bandidos ou cidadãos inocentes as vítimas das execuções. A preocupação real é de que esse tipo de ação tenha se tornado modo operandis da polícia carioca, que está mais para EXECUTORA que COMBATENTE.

O personagem de Calheiros


Fernando Rodrigues, em seu artigo na Folha de S. Paulo de ontem, comparou a atitude de Renan Calheiros com a de Joseph K. Para ele, o presidente do Senado está querendo se igualar ao complexo personagem de Franz Kafka (O Processo), que passa toda a narrativa respondendo a um processo do qual não conhece a acusação.
Para justificar a comparação, Rodrigues destacou o discurso de Calheiros na última terça-feira, em que disse: “Não sei do que estou sendo acusado”. Realmente, Joseph K. também não sabia por que – nem do quê - estava sendo acusado. No entanto, quem leu o livro sabe que ele próprio, no decorrer da narrativa, acaba incorporando o papel e agindo como culpado.
Por essas e outras posso garantir que Calheiros não age intencionalmente como o personagem. Ou no mínimo, se o faz, não conhece o desfecho da história. (O livro, na realidade, não foi concluído por Kafka, mas a narrativa termina em um ponto de grande desvantagem para o protagonista)
Poderia até sugerir aos companheiros senadores para que Calheiros seja comparado à Joseph K. e tenha o mesmo fim do personagem Kafkaniano, degolado no final do livro. Metáforas à parte, a cassação já seria suficiente.

04 julho 2007

Pulverização do perigo

“A diarista estava indo embora, quando um rapaz de mais ou menos trinta anos ‘bateu’ em casa. Eu segurei a Iracema pelo braço e pedi que ela esperasse mais um pouco. O rapaz pediu um calçado e uma blusa de frio e tava com uma fechada, esquisita... fiquei com medo. Eu falei que o sapato eu não tinha, porque meu marido calça menos que ele, aí ele retrucou, dizendo que não tinha problema. Mesmo assim, achei só uma blusa e entreguei pra ele. Nem obrigada ele falou! Mas saiu e vestiu a blusa, quer dizer que estava com frio.”

Esse relato feito a mim, anteontem, espelha a dicotomia e a prática da elaboração do pré-conceito que se implantaram em nossa sociedade. Não se pode mais ser pobre. Ser pobre é sinônimo de ser bandido. Denota que o cidadão desprovido de posses mínimas é passível de furtar sua casa, tão logo encontre o portão aberto. O estigma do bandido impregnou de tal forma esses moradores de rua que eles acabam por optar em vestir a carapuça. Não efetuam roubos, mas fecham a cara e passam a não mais pedir, mas exigir com certa violência e arrogância, crendo de que assim não receberão uma recusa. E tem razão.
O alvo dos pedidos - em sua maioria cidadãos de classe média - por sua vez, ao invés de sentir pena, como antes, sente-se intimidado. Dá comida, água, roupa ou dinheiro por medo de represálias, transformando um ato de solidariedade em pulverização do perigo. Pode ser um morador de rua que esteja realmente precisando de ajuda, mas a simples possibilidade de que o pedinte aponte uma arma em troca do pão com queijo afasta qualquer sinal de compaixão.
Podemos falar em culpados? Em artigo na edição de hoje da Folha de S.Paulo, Marcelo Coelho afirma que a classe média não suporta mais os pobres. E se baseia no caso da empregada doméstica espancada por playboyzinhos em um ponto de ônibus, em São Paulo. Para ele, isso representa um tipo de “intolerância” com os mais pobres, que seriam encarados como “transtornos” aos riquinhos imbecis.
Precisar se a repulsa partiu dos mais abastados ou dos menos favorecidos não vem ao caso. O que realmente interessa é explicitar a aversão entre indivíduos, que está instalada na sociedade e pode se transformar em um verdadeiro apharteid social, sem exageros.