14 maio 2007

Provação da fé


Logo na entrada do Recanto, camisetas e bonés sendo vendidos e uma urna para quem desejasse fazer doações. O dinheiro, explicam os donos, será usado na construção de um templo, no mesmo terreno da chácara, para acomodar mil pessoas. Do lado de fora, seguranças particulares ordenam o estacionamento dos veículos, que ocupam pelo menos quatro quadras nos arredores da chácara, no Afonso Camargo, em Apucarana.
Lá dentro, fiéis se protegem do sol com sombrinhas enquanto rezam o chamado Terço da Libertação, comandado por missionários e pelo “vidente”. O frio dera uma trégua naquela tarde de domingo, Dia das Mães, “sinal da santa”, diriam os mais crentes. Garrafas de água em uma das mãos, o terço na outra. Uma mais prevenida senta em sua cadeira de praia. Sinal que vai demorar.
Primeiro mistério. Inicia o terço. Estão presentes quinhentas pessoas, em média, onde caberiam apenas cento e vinte. Paro ao lado da entrada e a cada cinco minutos tenho que me mexer, ora para dar passagem a uma senhora, ora para aliviar a dor nos pés, espremidos dentro de uma bota desconfortável. Crianças e idosos sem espaço nos bancos se acomodam em muretas.
Estou do lado direito do altar, protegido pelo sol e mais apinhado.
Terceiro mistério. Continuo a observar. Um rapaz toma nota, ao fundo, de óculos escuros. Depois, se aproxima de uma moça desconhecida, os dois dividem uma garrafa d´água e ela atende o celular. Não são daqui, seus modos revelam. E estão desligados da celebração, assim como eu.
Quinto mistério. Acompanho o trajeto dos dedos de uma mulher em seu terço, as contas, escorrendo pelos dedos, estão acabando. Essa mesma mulher, em seus cinqüenta anos, beija a medalha de Nossa Senhora, frente e verso, bem como a cruz que estampa Jesus Cristo. Enrola o terço no pulso e põe a mão sobre as cabeças das três acompanhantes. Sua mãe e duas irmãs, suponho.
De onde estou já não é possível enxergar o “vidente”, ajoelhado atrás do altar, como em transe. Quando recomeça a falar, já não é ele. Omite sua personalidade e assume a de porta-voz da santa. “Falarei com vocês através da boca de meu filho, Valdecir”. Finalmente, as conversas paralelas cessam e até mesmo as crianças param de correr e gritar. O local mergulha em um profundo silêncio.
O que se segue é um recado da Virgem Maria e uma previsão nada otimista sobre o futuro. O missionário fala pausadamente, como se estivesse escolhendo as palavras, não tão reveladoras quanto se esperava e bem menos corretas do que deveriam. “Muito sofrimento em breve chega até vocês. Pra que isso não seja o fim da sua jornada, você permanece na oração. Virei interceder sempre por vocês, mas a misericórdia depende de cada um de vocês”, dizia a mensagem.
Nesse momento, já é possível ver pessoas chorando. E Nossa Senhora agradece como a anfitriã de uma festa. “Agradeço a presença de todos, voltarei outras vezes; antes de ir, passarei no meio de vocês e deixarei o meu sinal para que acreditem”, afirmou. O missionário narra a “caminhada” da santa entre os fiéis e descreve is abençoados por ela. Uma senhora idosa, com problemas de saúde; um senhor idoso, com problemas na família; uma criança que se salvou de um acidente; uma jovem com óculos na cabeça e a mão pousada no queixo. Os presentes se entreolhavam, buscando por aqueles que estariam recebendo a graça tão esperada.
Incrivelmente não vejo nenhum deles e não sinto calafrios com a “passagem” da Virgem. Sinto minha fé cair por terra e temo em perceber meu ceticismo. O relato da ascensão me lembra um quadro pendurado na parede do quarto de minha prima, descrevendo a aparição de Fátima. Um túnel de luz, ladeado por dois anjos, leva Nossa Senhora de volta para o céu.
Alguns estão em transe, outros, não percebem muita coisa - talvez por não merecerem? – há, ainda, os que vão embora sem esperar a entrega das rosas. Por falar nelas, lá estão. Rodeadas de abelhas, atraídas pelo cheiro do mel, que gotejava de algumas. Estava lá o maior “sinal” da passagem de Nossa Senhora: o perfume intenso de mel. Muitos fiéis levaram suas próprias flores, mas essas não ficaram impregnadas pela passagem da santa.