01 março 2007

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Pouco se sabia sobre a vida dele. Apenas o que ele próprio relatava, que não era muito. Infância pobre, isenta de oportunidades, sem carinho. No mais, sabia-se que a reação a essas causas, supostamente produzidas quando criança, vinha em forma de grosseria e indiferença. Para com todos: colegas de trabalho, pretensas namoradas. Quem o conhecia há tempos, como ela, sabia que não iria mudar e já não se magoava com respostas ríspidas. Mas havia os marinheiros de primeira viagem, para quem sua estupidez era inaceitável e ainda motivo de choro.
A relação entre Marina e Rodrigo corria assim, na corda bamba. Não era amorosa, visto que ela dispensara as poucas oportunidades que tiveram de uma aproximação, não era fraterna, já que isso incluiria afeto, coisa que ela imaginava que ele não sentisse por ninguém. A verdade era que toda a ilusão que tinha em relação a ele havia desaparecido.
Quando se conheceram, ele em um cargo superior ao dela na empresa, travaram uma relação, de cara, ambígua. Uns viam ali a possibilidade de um romance, e até torciam por isso para que ele diminuísse seu mau humor. Outros, enxergavam um barril de pólvora que explodiria a qualquer momento, visto as brigas intensas do casal. O fato é que essa relação a excitava. Tinha vontade de vê-lo, de ouvir suas indiretas.
Agora, tudo passara. Não queria mais vê-lo, ou melhor, lhe era indiferente. Suas brincadeirinhas pareciam infantis, bem como as indiretas. Suas explosões já não a afetavam, sabia que passariam.
Enfim, passara de um determinante de sua alegria ou tristeza a um zero a esquerda em sua vida. Simplesmente porque não sabia cultivar sentimentos, corresponder boas ações, ser complacente. Inviabilizara qualquer tipo de amor que pudesse receber dos próximos. E, provavelmente, acabaria só.