24 fevereiro 2007

Linda história


Há muito tempo, um casal de senhores, que não tinha filhos, morava em uma casinha humilde, de madeira. Ambos amavam-se muito, eram felizes. Até que um dia aconteceu um acidente com a senhora. Ela estava trabalhando em sua casa quando começou a pegar fogo na cozinha e as chamas atingiram todo o seu corpo. O esposo acordou e foi à sua procura. Quando a viu coberta pelas chamas, imediatamente tentou ajudá-la e o fogo também atingiu seus braços. Mesmo em chamas, ele conseguiu apagar o fogo.
Quando chegaram os bombeiros, já não havia mais incêndio, apenas fumaça e parte da casa destruída. Levaram rapidamente o casal para o hospital mais próximo. Após algum tempo, aquele senhor, menos atingido pelo fogo, saiu da UTI e foi ao encontro de sua amada. Ainda em seu leito, a senhora, toda queimada, pensava em não viver mais, pois estava muito deformada depois que as chamas queimaram todo o seu rosto. Chegando no quarto, logo ela foi falando:
Tudo bem com você, meu amor? Sim, respondeu ele, pena que o fogo atingiu os meus olhos e eu não posso mais enxergar, mas fique tranqüila amor que a sua beleza esta gravada em meu coração para sempre. Então, triste pelo esposo, disse-lhe: Deus, vendo tudo o que aconteceu, tirou as vistas do meu marido para que não presenciasse a deformidade que eu fiquei. As chamas queimaram todo o meu rosto e estou parecendo um monstro.
Passando algum tempo, recuperados, voltaram para casa onde ela fazia tudo para seu querido esposo e ele todos os dias dizia-lhe: "Como eu te amo!" E assim viveram mais 20 anos, até que a senhora veio a falecer. No dia de seu enterro, quando todos se despediam, veio o senhor, sem seus óculos escuros e com sua bengala nas mãos. Chegou perto do caixão, beijando o rosto e acariciando sua amada, e disse em um tom apaixonado: Como você é linda meu amor eu te amo muito.
Ouvindo e vendo aquela cena, um amigo que estava ao seu lado perguntou o que tinha acontecido para que ele estivesse enxergando; era um milagre. Olhando nos olhos dele, o velhinho apenas falou: Nunca estive cego, apenas fingia, pois quando a vi toda queimada sabia que seria duro para ela continuar vivendo daquela maneira. Foram vinte anos vivendo muito felizes e apaixonados!!!

22 fevereiro 2007

A memória do sonho


Fátima despertou de um sono conturbado. Estava em um local que nunca tinha visto, mas parecia conhecer. Estranhamente, dormia com roupas de trabalho, em um hotel. O quarto era mínimo, mas a porta aberta permitia a entrada de vários intrusos que atrapalharam seu sono. Lá embaixo, o pátio imenso aglomerava inúmeras pessoas desconhecidas, em um vaivém sem nexo.
Entre um e outro fitava, de relance, um rosto conhecido até deparar-se com sua irmã, que estava bastante ambientada. Lavaram a louça que estava acumulada na pia de uma casa que parecia ser delas (embora Fátima não se lembrasse), construída de uma madeira já gasta e com apenas três cômodos pequenos. Ficava anexa ao hotel, quase que fazendo parte dele.
Foram até o varal e ela recolheu as próprias roupas, as da irmã e outras peças que não sabia a quem pertenciam. O engraçado era que Fátima lembrava-se de já tê-las recolhido, da mesma maneira e na mesma posição, em um momento longínquo. Voltou ao quarto do hotel com a mesma demora de um piscar de olhos e viu-se acompanhada por um colega de trabalho e uma outra pessoa. Esta, desconhecida.
Conversaram e a própria Fátima estranhou a proximidade entre os dois, que parecia ser cultivada há tempos. Foi aí que se beijaram e ela lembrou-se que tinha namorado, fato que não a fez interromper o beijo. Aliás, beijaram-se mais e mais vezes, como se aquilo fosse hábito, e ela com a imagem do namorado na cabeça. Estranhou como não sentia-se constrangida mesmo após lembrar que, na noite anterior, havia encontrado o namorado e tinha sido maravilhoso, como de costume. Isso veio a sua mente em meio a mais um dos molhados beijos que trocava com o colega.
Acordou. Acordou? Isso mesmo, "graças a Deus era um sonho", pensou. Mas como, no sonho, lembrava-se de coisas que haviam acontecido em outro sonho, anterior? O que se passava na mente humana após o fechar dos olhos a intrigava tanto a ponto de ter tentado ler "O livro dos sonhos", de Freud, no primeiro ano da faculdade. Não entendeu uma linha. Por isso, continuava sustentando sua versão de que os sonhos desenrolavam-se em uma tela minúscula, acoplada à caixa craniana, como um filme.
Considerava a possibilidade, defendida não sabia por quem, de que, apesar de parecerem longos, os sonhos duravam apenas segundos. Agora, juntava-se às suas teorias a possibilidade de existir uma memória do sonho, paralela à memória real. Talvez, um dia, alguém descobrisse o que realmente estimulava aquelas histórias noturnas, sem nexo, ou ela construísse o seu próprio "Tratados dos sonhos".

17 fevereiro 2007

Não peça o que não oferece


Era o primeiro dia de aula da oitava série e, como sempre, a professora tinha aquela mania horrível de perguntar o nome de todos, iniciantes e antigos alunos, para que cada um respondesse em voz alta, estimulando a interação entre eles.
Recordou-se do primeiro dia na primeira série, quando a diretora visitou todas as salas para conhecer os "aluninhos". Ao perceber que aquela senhora loira, de meia idade, perguntava, um por um, seus nomes, sentou-se meio que curvado na cadeira, na esperança de que ela o esquecesse. Foi em vão. É possível que, na tentativa, tenha, ao contrário, chamado ainda mais a atenção dela e da professora.
E naquele dia a situação se repetia. A professora parecia sorrir maquiavelicamente, como que esperando aquele momento para rir dele. Tentou fixar a mente nos treinamentos intensivos feitos em casa, quando sua mãe repetia, incansavelmente: “Marcos Pedro. Esse é o seu nome. Repita comigo filho”!
-Fala filho, como você se chama? A professora era velha, talvez por isso chamasse a todos eles de “filho”. Ela estava em pé, impaciente, diante de sua carteira, que era uma das últimas da imensa sala. Durante seu devaneio, ela deve, provavelmente, tê-lo chamado várias vezes, já que todos os colegas o olhavam agora, piorando ainda mais aquele momento.
Nos anos anteriores, a dificuldade era amenizada porque a maioria dos colegas já o conhecia e relevava o problema; alguns riam sempre, mas ele já havia se acostumado. Agora, teria que ver caras novas rindo e isso não lhe agradava nada. Havia se transferido naquele ano para a escola, em virtude de uma mudança de bairro.
-Você está bem? Perguntou a professora.
-Estou, respondeu vermelho.
-Então, me diga, qual é o seu nome?
Veio a derrocada, sabia que não conseguiria superar o que sua mãe chamava, gentilmente, de "tique", enquanto os médicos floreavam e classificavam como "Distúrbio Articulatório da Fala". O que ninguém entendia era porque acontecia apenas no momento de dizer seu nome, e não com todas as palavras que tivessem estruturas parecidas. "Pedra", era pedra; "pedraria", também; assim como "pobreza". Mas quando ia dizer seu nome, era sempre a mesma coisa. Em sua cabeça a palavra quase ressoava da maneira correta, tamanha sua vontade de superar o distúrbio. Mas saia errada.
-Marcos PREdo.
-Como?
-Marcos PREdo!
irritou-se
Todos riram. Reviveu o momento em que sua coleguinha da primeira série disse, compadecida: "Ele ainda vai aprender a falar Pedro", e sentiu falta daquela solidariedade. Sabia que nunca mais a teria, pois, quanto mais velho o ser humano, menos humanista. A professora tentou esconder o risinho e prendia, com força, os cantos da boca, para impedir que ela se abrisse e estimulasse a risadaria.
Marcos Pedro pediu para sair, tomar uma água, mas queria mesmo dar uma volta no pátio. Andava meio que escondido, para evitar que os vigilantes inspetores o vissem. Parou embaixo de uma árvore para pensar na vida. Teve tempo de imaginar quantas dificuldades aquela “falha” ainda lhe traria: quando fosse pedir emprego, preencher cadastro de banco, apresentar-se a alguém. Foi aí que viu uma menina sentada embaixo da árvore ao lado, nem havia reparado nela, que chorava copiosamente. Resolveu se aproximar e recebeu de volta um grito assustado da garota. Conseguiu acalmá-la.
-Só não pergunte o meu nome, ela disse e ele concordou na hora, pensando em seu próprio benefício.
O rosto da menina suavizou. Conversaram até quase o final da manhã, quando um dos inspetores os encontrou. Apesar dos pedidos de clemência, o algoz os encaminhou à diretoria; não esperava conhecer aquela sala tão rápido. Era bastante iluminada, mas a mobília velha contrastava. Seo Fontes estava sentado de costas para a porta, digitando algo que Marcos Pedro tentou ler, apenas por curiosidade, mas fora impedido pelo inspetor. O diretor foi alertado da presença dos dois alunos e virou-se rapidamente com o olhar amigável. Marcos adiantou-se em explicar.
-Desculpe senhor, nós apenas estávamos conversando, mas foi rápido; eu nem ao menos sei o nome da garota!
-Era exatamente o que eu ia perguntar.
A menina recusou-se veementemente a dizer seu nome na frente do novo amigo. Mas o diretor era igualmente enérgico e ela não teve como escapar.
-É Xônia.
-Como?
-Xônia.
Marcos Pedro parecia nunca ter ouvido nada tão engraçado em sua vida, pois desatou a rir, sem parar, nem se preocupar com as lágrimas, que já borbulhavam nos olhos da garota. –Que nome horrível, gritava e batia na mesa. O diretor, constrangido, pediu para que o garoto se retirasse, mas este nem o ouviu. Sônia novamente chorava e soluçava. Pensava haver encontrado um amigo, mas via que ele, como todos, riam de seu problema. Marcos Pedro passou de vítima a vilão em apenas um segundo e daquele momento em diante não exigiu mais a solidariedade de sua coleguinha da primeira série. Achava que não precisava.

16 fevereiro 2007

Show de resposta

Talvez muitos já tenham recebido por e-mail e lido sobre o show do nosso ex-ministro da Educação, Cristovam Buarque, nos Estados Unidos. É por essas e outras que votei nele e votaria novamente. Longo, mas vale a pena.

Durante debate em uma universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, ex-ministro da educação e atual senador, Cristóvam Buarque, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem norte-americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta do Sr.Buarque:

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalizaçã o de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito, um milionário japonês,decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante esse encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris,Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Como humanista, aceito defender a internacionalizaçã o do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!"

09 fevereiro 2007

A solidão acompanhada de um bom livro

Gilberto buscou aquele antigo livro na estante, seu preferido, mas que não lia há meses. Onde estava? Precisava ler as frases que só García Marques sabia escrever. Hum, estava emprestado para Sandra, sua colega de trabaho. Lembrou-se que estranhou no dia em que ela lhe pediu o livro, primeiro porque ela parecia saber que ele possuía a obra, depois porque nem conversavam no escritório. Sandra batia à máquina sem parar, escondida pelos cabelos ruivos, não olhava ninguém. A impressão era de que nem respirava. Gilberto mal a via.
Amanhã vou pedir de volta, pensou. Nem foi preciso, mas a vontade de ler o livro já havia passado. Colocou-o de volta na estante, no lugar reservado a ele. Sentiu alívio por vê-lo novamente ali. Lembrou-se do olhar que Sandra havia lançado ao devolvê-lo. Disse: muito bom, obrigada! e estava com o cabelo mudado. Devia estar namorando. Talvez o rapaz fosse apreciador de livros e ela quisesse impressioná-lo. García Marques não permaneceu por muito tempo na estante. Flávia, outra colega, pediu-o dois dias depois.
Era linda e Gilberto imaginou como seria bom debater a obra deitado em seu colo, com os seus cabelos roçando-lhe a face. Sabia do interesse dela por literatura, já que especular a vida da moça era um de seus hábitos, por isso estranhava que ela ainda não houvesse lido o livro. Talvez queira relê-lo, pensou, mas nada perguntou. Bastava que ela deixasse um pouco de seu cheiro nas páginas. Tirou novamente García Marques da estante, não sem aperto no coração. Lá vai você, meu amigo, para onde jamais irei, disse em voz alta.
Entregou o livro sem marca páginas, como havia voltado do empréstimo a Sandra. Pensou quanto tempo Flávia demoraria para ler e surpreendeu-se quando, uma semana depois, ela o devolveu. Já? Sim, quando eu gosto, leio rápido. Parecia insinuar-se. Se quiser, tenho outros dele. Não, obrigada, eu tenho quase todos, acho que só me faltava ler esse. Foi ao banheiro a fim de que ela não presenciasse a cena em que ele abriria o livro para sentir um possível aroma de seu perfume impregnado nas folhas. Mas, para sua surpresa, algo melhor o esperava.
Um brilhete, pequeno, rasgado nas beiradas, sem o menor cuidado, como que às pressas. Eu te amo! Não acreditou. Sentiu as pernas bambearem. Saiu sem poder ver nada, apenas ela, sentada em sua mesa, ao telefone, como se não tivesse acabado de mudar a vida de alguém. Preciso falar com você. Só um minuto. Esperou por apenas um segundo para que ela desligasse e a rapidez com que o fez apenas reforçou o que o bilhete dizia.
Quero falar sobre isso, mostrou o bilhete, esboçando um sorriso. Ah, isso, achei que não tinha visto. Vi e te chamei aqui para dizer que a recíproca é verdadeira. Como? É isso mesmo. Não precisa dizer isso a mim. Não? Você sabia? Também não, mas... Já sei, você quer pular a parte das meias palavras. Sandra ouvia tudo porque estava pegando café bem naquela hora. Não era coincidência, seguiu Gilberto assim que viu que ele saía com Flávia, e o livro na mão.
Gilberto se aproximava da moça e quase não deixava espaço para que ela respirasse. Mas ao invés de parecer feliz, ela respirava nervosamente e tentava falar algo, que era imcompreensível aos seus ouvidos inebriados pela descoberta. Sandra, que via a cena pela fresta da porta, segurava uma lágrima que estava pendendo de seus olhos. Furtado chegou por trás dela, as mãos em sua cintura, para saber o que atraía tanto sua atençao.
Flávia! A jovem conseguiu enfim respirar, já que Gilberto afastou-se com o susto causado pelo grito do chefe. O quê está acontecendo aqui? Nada, respondeu Flávia, ajeitando o cabelo bagunçado por Gilberto. Sandra estufou o peito, como se fosse desmascarar alguém. Eles estavam se beijando e trocando juras de amor. Furtado ficou vermelho e ia para cima de Gilberto, sob protestos das duas moças. Pára Furtado, houve apenas um engano. Gilberto, não fui eu quem escreveu esse bilhete. Nem sei do quê se trata. Fui eu, seu idiota! gritou Sandra. Que bilhete é esse? perguntou Furtado.
Gilberto encheu-se de vergonha e esticou o pequeno papel ao chefe, que olhou, mas não desamarrou a cara. Sandra, que história é essa de amor? Emudeceram todos, olhando para a ruiva enrubecida. Menos Flávia, seu alvo era Furtado. Quebrando o silêncio, disse: Eu é que pergunto, porque a preocupação com a Sandra? Voltaram-se todos para Flávia, estupefatos.
Gilberto foi o primeiro a sair, ao perceber que não era vértice daquele triângulo. Voltou para sua mesa enquanto os três discutiam um rumo para aquela situação. Uma coisa era real, e apenas uma, Sandra poderia até amá-lo, mas cedeu a Furtado, bem como sua musa.
Não queria mais nenhuma das duas, queria a solidão. E García Marques, que sempre tinha uma palavra de consolo e não fingia ser só seu. Apresentava-se com todos os seus defeitos.

08 fevereiro 2007

China, antiga potência



O mundo aguarda o fim da silenciosa corrida da China, país com mais de 1,3 bilhão habitantes, ao pódio de maior potência mundial, desbancando os EUA. A queda de um império como o norte-americano não será coisa rápida, talvez nós não presenciemos, mas é evidente que a China é o único país que bota medo nos EUA.
Mas não é de hoje que os chineses têm todo esse poder; uma de suas cidades já foi considerada a "capital mundial", mais ou menos como hoje é Nova York. Trata-se da cidade de Kaifeng, há mil anos. Era lá que se concentravam os maiores avanços econômicos e culturais, com destaque para a produção da porcelana.
E a China foi o berço de muitos outros artigos importantes. Confira só.
SEDA: a poderosa mercadoria chinesa surgiu em 2000 a.C.
PAPEL: a origem foi na China, no século 2.
ARMAS DE FOGO: Os venezianos foram os primeiros a vender, mas os chineses já conheciam a pólvora há tempos.
PORCELANA: surgiu na China e foi levada à Europa a partir do século 13.
Com todos esses indícios históricos, alguém duvida do potencial chinês? Nós não, mas certamente nossos filhos e netos ficarão às voltas para aprender algo bem mais complicado que o inglês: o mandarim!

07 fevereiro 2007

Quem não quer dinheiro...


A Folha de Londrina publicou matéria hoje em que esclarece que os deputados estaduais eleitos, Ênio Verri (PT) e Nelson Garcia (PSDB), convidados para secretarias estaduais, poderão usufruir do salário e das verbas de gabinetes, dispensados aos deputados, num total de R$ 60.540 mil. Mas, isso, só se quiserem!
Eles poderão escolher apenas o salário de secretários: R$ 12 mil. Nem precisa dizer o que eles escolherão, mas o absurdo dessa história é existir a possibilidade de optar. Então, se o direito valesse para todos os brasileiros, igualmente, um aprovado em concurso público poderia abrir mão do cargo por um outro emprego melhor, mas garantir o salário do concurso. Não seria justo?
Mas não é o que acontece. Sem lógica moral nenhuma, (apenas jurídica), os secretários podem optar por salários maiores, estabelecidos pelos cargos que eles próprios abriram mão. Ou é preciso proibir que deputados eleitos assumam secretarias ou é preciso cortar esse direito absurdo de optar por salários. De duas, uma.

Inversão de valores







Advogado corta o galho da árvore
que virou escada para ladrões

Um advogado londrinense pode ser autuado por ter cortado o galho de uma árvore que cresceu bem próximo ao prédio onde ele mora. Com isso, virou escada para os ladrões assaltarem os apartamentos. Como o pedido para poda da árvore não foi atendido pela Secretaria de Meio Ambiente (Sema), ele fez, com as próprias mãos, o que considerava uma questão de segurança. No entanto, terá que se ver com a justiça.
O problema em uma questão como essa é a inversão de prioridades. O que é mais urgente: garantir segurança aos londrinenses ou manter o galho de determinada árvore? Depois, o que deveria ser feito: prisão do ladrão ou autuação do advogado? Não sou a favor do corte indiscriminado, longe disso, no entanto, as pessoas se revoltam tanto em situações como essas e defendem tão acirradamente o meio ambiente, que se esquecem dos seres humanos. AFINAL, TAMBÉM SOMOS PARTE DO MEIO AMBIENTE!!!
Essas inversões de valores, ocorrem com freqüência com grupos defensores dos Diretos Humanos, que só aparecem para defender bandidos, ou ONGs ambientais, que só lembram da conservação das baleias. Cada um com suas bandeiras, MAS E O SERES HUMANOS?
Creio que isso tem acontecido porque os ambientalistas e humanistas são mais acirrados em suas defesas do que nós, que ficamos em cima do muro e esperamos que outros defendam os nossos direitos. Esse advogado provavelmente estaria sendo aplaudido se fizesse parte de uma ONG ou outro tipo de entidade civil. Mas será condenado. Espero que, apenas, a plantar outra árvore.

O Processo - Kafka

Franz Kafka, no canto direito: ele era real


Diante da lei está parado um porteiro. Um homem do campo chega até esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que ele não pode permitir sua entrada naquele momento. O homem reflete e pergunta, em seguida, se ele poderá entrar mais tarde. "Até é possível", diz o porteiro, "mas agora não". Uma vez que a porta para a lei está aberta como sempre, e o porteiro se põe de lado, o homem se acocora a fim de olhar para o interior. Quando o porteiro percebe o que está acontecendo, ri e diz: "Se te atrai tanto, tenta entrar apesar da minha proibiução. Mas nota bem: eu sou poderoso. E sou apenas o mais baixo entre os porteiros. A cada nova sala há novos porteiros, um mais poderodo do que o outro. Tão-só a visão do terceiro nem mesmo eu sou capaz de suportar".
Tais dificuldades o homem do campo não havia esperado; uma vez que a lei deveria ser acessível a todos e sempre ele pensa, mas agora que observa o porteiro em seu sobretudo de pele com mais atenção, seu nariz pontudo e grande, a barba longa, fina, negra e tártara, ele acaba decidindo que é melhor esperar até receber permissão para a entrada. O porteiro lhe dá um tamborete e o deixa esperar sentado ao lado da porta. E lá ele fica sentado durante dias e anos. Ele faz várias tentativas no sentido de que sua entrada seja permitida, cansa o porteiro com seus pedidos. O porteiro muitas vezes o submete a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe pelo lugar onde nasceu e muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, assim como as fazem grandes senhores, e por fim acaba sempre lhe dizendo que não pode deixá-lo entrar.
O homem, que havia se equipado com muita coisa para a viagem, utiliza tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Muito embora este aceite tudo, sempre acaba dizendo: "Eu apenas aceito para que não acredites ter deixado de fazer alguma coisa". Durante os vários anos, o homem obsrvou o porteiro quase ininterruptamente. Ele esquece os outros porteiros, e aquele primeiro lhe aprece ser o único obstáculo à entrada na lei. Ele amaldiçoa o acaso nos primeiros anos e, mais tarde, quando fica mais velho, apenas resmunda consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que no estudo do porteiro, feito durante anos a fio, conheceu também as pulgas em sua gola de pele, ele pede também às pulgas que o ajudem a fazer o porteiro mudar de idéia.
Por fim, a luz de seus olhos se torna fraca, e ele não sabe mais se em volta dele tudo está ficando escuro de verdade ou se são apenas seus olhos que o enganam. Porém, agora ele reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. E eis que ele não vive mais por muito tempo. Antes de sua morte, todas as experiências do tempo que por lá ficou se reúnem na forma de uma pergunta em sua cabeça, uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Ele acena em sua direção , uma vez que já não pode mais levantar seu corpo enrijecido. O porteiro tem de se inclinar profundamente sobre ele, pois a diferença de tamanho se acentuou muito, desfavorecendo o homem. "Mas o que é que queres saber ainda agora?", pergunta o porteiro, "Tu és mesmo insaciável". "Se todos aspiram à lei", diz o homem, "como pode que em todos esses anos ninguém a não ser eu pediu para entrar?"
O porteiro reconhece que o homem já está no fim, e no intuito de ainda alcançar seus ouvidos moribundos, grita com ele: "Aqui não poderia ser permitida a entrada de mais ninguém, pois essa entrada foi destinada apenas a ti. Agora eu vou embora e tranco-a".



Franz Kafka, O Processo.


Fiquei extasiada com esse trecho da obra do tcheco Kafka, apesar de todo o livro ser fantástico. Mas, esse trecho, realmente condensa toda a capacidade de construir um discurso cativante extremamente recheado de sublimidade do autor. Após a lenda, há uma intensa discussão entre Josef K. e o sacerdote que a relata acerca do seu real significado. O que a lenda quer dizer? No contexto do livro, a fixação do homem pela lei se justifica. Mas, e para nós, não há valor?
E se a lei for tudo aquilo pelo qual temos grande interesse, grande vontade de atingir. Basta ficar sentado, esperando que alguém te convide? E se o homem ousasse entrar, apesar da recusa do porteiro? Como o próprio livro diz, não há uma uma explicação única para essa, nem para outras lendas. Mas, para mim, essa seria bem aceitável.
Para quem não leu, e gosta, está mais do que recomendado: O Processo.