26 abril 2006

Vergonhas da nossa nação

“Outro dia um menino de 11 anos entrou numa agência de empregos; queria um trabalho para ajudar os pais. Não fosse o desemprego e os baixos salários, nenhuma criança gostaria de trocar suas brincadeiras por trabalho. Diante desta esculhambação econômica, porém, a opção reduz-se a trabalhar ou passar fome.”
Décio Melo
Outro dia entrei num supermercado; estava com pressa, queria ser atendida rapidamente. Chamei um moço de, no máximo, 17 anos, para empacotar minhas compras. Não me deu atenção. Quando me dei conta, um senhor vinha correndo (com perdão da hipérbole): pegou a sacolinha e colocou os produtos dentro. Antes disso, deu-me um sorriso, o qual retribuí surpresa. Parecia cansado, eram quase seis da tarde e ele deveria estar trabalhando desde a manhã. Devia ter seus quase 70 anos. Pensei na hora: “Não fosse a aposentadoria miserável, nenhum idoso precisaria trocar sua caminhada matinal e a conversa com os amigos na praça, por trabalho”.
Perguntou-me se estava de carro. Disse que sim, no estacionamento, um Gol prata. Colocou as sacolas dentro do carrinho, com uma agilidade invejável ao desatento adolescente que eu chamara anteriormente. Foi fabuloso vê-lo seguir rumo ao automóvel com um pé sobre a barra inferior do carrinho e outro pegando impulso no chão, como fazem as crianças atuais com seus patinetes. Senti piedade, mas, para minha surpresa e desconcerto, ele parece ter percebido meu sentimento e retribuiu-me com um sorriso, como se dissesse que era ele quem deveria sentir aquilo por mim.
Seu João Silveira Dias deve ter pensado naquele momento o quanto minha vida era corrida, o quão velha, aparentemente, eu seria na idade dele: 67 anos. E deve ter pensado em tudo o que eu não saberia quando chegasse lá. Seu João precisava do emprego no supermercado para completar a aposentadoria que conseguira depois de anos de trabalho pesado. Eu precisava dele para levar minhas sacolas. Mas, olhando para seus olhos enrugados e suados, pensei que precisava dele para muito mais do que isso.
Precisava dele para me ensinar a como levantar de manhã com um sorriso no rosto e como trabalhar assobiando o dia todo; enquanto eu levantava esbravejando, pedindo mais dez minutos de descanso. Precisava dele para me mostrar a beleza do pôr-do-sol, que ele admirava após as seis horas da tarde enquanto voltava a pé para casa, já que eu estava no meu carro sem olhar para o céu, com as janelas fechadas e o ar condicionado ligado.
Eu precisava da dignidade que aquele homem mostrava a cada vez que servia um dos clientes do supermercado. Ele nos faz sentir vergonha do país em que vivemos, por exigir que um senhor que já dedicou mais de 55 anos ao trabalho passe o fim da vida em um supermercado, ganhando um salário mínimo e um vale-transporte que não usa para poder vender e completar a renda familiar. Ele nos faz sentir vergonha de não sermos nós a carregarmos as sacolas para ele.

2 comentários:

Luana disse...

Concordo em gênero, número e grau!!
Beijos

Hugo disse...

Triste e chocante!!!... Enquanto uns gastam 60.000 com gasolina outros 2 horas de ônibus, 3 horas de fila para conseguir um "sinto muito, a senha acabou" e assim devem renovar a esperança a cada dia...Solução? Sei não, talvez abrir um posto perto do de uma prefeitura ou câmara dos deputados... essa foi a melhor idéia que tive até agora.